A granada da dívida sénior do Novo Banco

Citamos

Público Opinião Ricardo Cabral

“When in doubt do nowt”, antigo provérbio de Cheshire

O Conselho de Administração do Banco de Portugal ao tomar a decisão, em 29.12.2015, de passar cinco séries de dívida sénior do Novo Banco para o BES, conseguiu criar uma enorme polémica a nível internacional. Arrastou a banca italiana para o fundo e está gerar turbulência nos mercados. Nessa decisão, na prática, o Banco de Portugal tratou credores seniores como se estes fossem accionistas, para depois emendar parcialmente a mão oferecendo compensação parcial a esses credores. Verificou-se depois que alguns desses credores compraram essa dívida depois do Novo Banco ser criado e que outros são clientes particulares do Novo Banco.

Ora devido a cláusulas dos títulos de dívida – cross-default – é possível que os credores do Novo Banco possam vir a solicitar o pagamento antecipado de toda a dívida titulada do Novo Banco, o que provavelmente precipitaria a sua falência. Resta saber como actuará o Single Resolution Board – i.e., o BCE –  perante uma declaração de incumprimento do banco pela ISDA (uma associação que declara a ocorrência de eventos de “default”). Uma hipótese que não se pode excluir é de o Estado (Fundo de Resolução) poder perder a totalidade da posição accionista no Novo Banco, embora espere que o BCE não tome essa decisão.

O pior é que, provavelmente sob pressão injustificada do BCE para aumentar o capital do Novo Banco até ao final de Dezembro de 2015, o Banco de Portugal tomou uma decisão que, no mínimo, foi arriscada e possivelmente desnecessária.

Com efeito, o capital necessário exigido pelo teste de stress podia ser obtido em até 9 meses e é possível que bastassem operações de optimização do balanço e desalavancagem para colmatar a falha de capital (por exemplo, vendendo a dívida pública que o Novo Banco tinha no balanço).

leverage ratios
Figura: Rácio de alavancagem do Grupo 1 (os 38 maiores bancos da zona euro, considerados sistémicos) e do Grupo 2 (97 bancos da zona euro, mas com presença internacional reduzida), F: EBA.

 

É chocante que um banco que, no início de Dezembro, tinha um rácio de capital CET1 de 9,7% (quando o mínimo é de 7%) e um rácio de alavancagem de perto de 7% (quando o mínimo é 3%), muito acima da média dos 38 maiores bancos europeus (4,5%), como se pode ver na figura acima, tenha necessidades de capital de 1,4 mil milhões de euros.

Afigura-se portanto que o melhor era o Banco de Portugal não ter feito nada, como sugere o provérbio acima referido.

P.S.- O gráfico mostra o rácio de alavancagem após período de transição. O rácio de alavancagem média dos 38 maiores bancos europeus baixa dos actuais 4,5% para 3,9%.

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