Banif, o preço, as notícias e os políticos

Citamos

Negócios Opinião Ulisses Pereira

Apesar de todos os desmentidos, a verdade é que a vida do Banif em Bolsa chegou mesmo ao seu final.

“As notícias sobre a minha morte são manifestamente exageradas”

Mark Twain

 

Apesar de todos os desmentidos, a verdade é que a vida do Banif em Bolsa chegou mesmo ao seu final. Ao longo dos últimos meses em vários artigos e no tópico sobre o Banif no Caldeirão de Bolsa (quase 10 mil posts já foram escritas apenas nesse tópico!), perdi a conta ao número de vezes que rebati os argumentos dos que defendiam o investimento no Banif e alertei para o perigo da atracção pelo abismo que são as cotações próximas do zero. Mas nem isso me impede de ficar triste por estes dias e pela situação que se está a viver.

Quando uma acção desaparece da Bolsa e os seus accionistas vêem os seus investimentos reduzidos a zero, o mercado de capitais vê sempre a sua confiança abalada e há milhares de portugueses que nunca mais querem ouvir falar de Bolsa na vida. O coxo PSI 18 passa a PSI 17 agravando ainda mais a sua credibilidade. Mas, sejamos sinceros, as falências fazem parte do capitalismo e – por mais dolorosas que sejam – são um dos pilares da economia de mercado.

Vejo os accionistas indignados por terem perdido todo o seu dinheiro e alguns querem ser ressarcidos. Não podia discordar mais. Quem investe numa empresa, esteja ou não cotada, sabe que corre riscos de perder todo o seu dinheiro e essa é uma das premissas fundamentais do capitalismo. Que os contribuintes se indignem com terem que ser penalizados com esta situação, aí sim é perfeitamente legítimo.

Esta situação veio, uma vez mais, reforçar a minha convicção de que são os gráficos os meus maiores aliados na hora de analisar o mercado de capitais. Ao contrário dos políticos, dos gestores e das notícias, o preço não mente. Reflecte a vontade dos compradores e vendedores. Ao longo do último ano, quantas notícias saíram a anunciar as noivas do Banif? Desde a China até à Guiné-Equatorial, era um rol quase infindável de pretendentes a essa jóia da coroa. Quantas vezes as autoridades falavam em situação controlada? Mas o preço – esse malvado e realista – continuava a cair ao longo dos meses. Excitava-se por uns momentos, depois da divulgação dessas notícias, mas rapidamente retomava o seu percurso rumo ao zero. Foram acrescentando casas decimais para que a acção pudesse continuar a ser negociada, mas a rota não mudou.

Não acredito na maior parte dos políticos. Não acredito na maior parte das notícias. Mas acredito no preço. Sempre que escrevia um artigo em que falava da “atracção pelo abismo” em que os investidores correm a comprar as acções que caem e estão próximas do zero, ignorando as acções que sobem, muitos diziam que era a oportunidade de ouro. Que as acções não podiam cair mais. Uma vez mais, o mercado deu uma verdadeira lição. E, uma vez mais, o preço sinalizava tudo. Aquilo que os políticos não podiam dizer.

Há muito tempo que o preço nos dizia “Fujam!” no Banif. Mas a esperança, os políticos e as notícias encarregaram-se do oposto. Claro que agora o que se vai ler nas próximas semanas é tudo a bater nos reguladores, no actual Governo, no anterior Governo, na Administração. É fácil e garante sempre aplausos. Eu prefiro focar-me nos investidores. Eles não devem ter como ambição mudar o mundo, mudar a forma como as autoridades regulam ou como a Comunicação Social funciona. A ambição deles, como investidores, deve ser preservar o seu capital e fazer bons negócios, no meio da selva que são os mercados financeiros. E usar a desculpa de todos esses agentes para justificar porque perdem dinheiro nos mercados é não assumir o seu erro e não tirar lições para o futuro.

Quando uma cotação cai para níveis inimagináveis, não culpem os “short sellers”, não culpem os reguladores, não culpem a Imprensa, não culpem o Governo. Culpem-se a si mesmo por continuarem agarrados a uma acção que há muito tempo já vos pedia para venderem.

O mundo continuará na mesma. Os reguladores continuarão a não ver. O Governo continuará a assobiar para o lado. A Comunicação Social continuará a dar notícias fabulosas para ter leitores e espectadores. Cabe a si mudar e olhar para o que verdadeiramente interessa – o preço. A sua carteira vai agradecer-lhe.

 

Leave a Reply

You must be logged in to post a comment.