BES: “Alguns dos créditos [ruinosos] tinham péssimo rating (ou nem tinham)”, diz ex-diretor

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BES: “Alguns dos créditos [ruinosos] tinham péssimo rating (ou nem tinham)”, diz ex-diretor

Carlos Calvário, ex-diretor de risco do BES, diz que créditos (que viriam a ser ruinosos) como a Moniz da Maia, Ongoing e empresas de Luis Filipe Vieira foram dados sem rating (ou com mau rating).

Muitos dos créditos volumosos (e que viriam a revelar-se ruinosos, em centenas de milhões) que o Banco Espírito Santo concedeu “tinham péssimo rating” ou “não tinham, sequer“, uma notação de risco de crédito. Quem o aponta é Carlos Calvário, ex-diretor do departamento de risco global do BES, que não especificou de que entidades estava a falar mas fez esta análise em resposta a uma pergunta sobre créditos a empresas como as de Moniz da Maia, Ongoing, Promovalor (Luís Filipe Vieira) e Prebuild (João Gama Leão, José Guilherme). “Não foram, certamente, créditos aprovados aos balcões, terão sido aprovados num nível máximo”, afirmou.

As declarações surgiram numa audição parlamentar, no âmbito da comissão de inquérito às perdas do Novo Banco (e imputadas ao Fundo de Resolução), esta terça-feira. Após duas horas de uma sessão morna, em que Carlos Calvário basicamente repetiu muitas das informações que já tinha prestado na comissão de inquérito do BES (2014/2015), o gestor respondeu à deputada Mónica Quintela, do PSD, que o tinha questionado sobre as exposições de crédito ruinosas que estão descritas na auditoria da EY aos “grandes devedores” do BES.

“Há aí uma série de nomes [cujos créditos] estão descritos nesse relatório e estará lá explicado onde foram aprovados, certamente não foram aprovados nos balcões ou por alguns órgãos intermédios. Terão sido aprovados num nível máximo de crédito”, afirmou Carlos Calvário, salientando que “alguns desses nomes tinham péssimos ratings, que provavelmente foram atribuídos a posteriori da concessão desses mesmos créditos”.

Parte das funções do departamento de risco global, liderado então por Carlos Calvário, era “atribuir ratings quando nos pediam”. Ou seja, quando era indicado que um dado cliente ia ser falado no conselho financeiro de crédito, muitas vezes era pedido que um representante desse departamento emitisse uma opinião sobre a qualidade daquele cliente e o risco de um possível crédito.

“O nosso papel era sempre que sabíamos que um determinado dossiê ia a conselho, produzíamos elementos, explicávamos as nossas opiniões, ainda mais quando as nossas opiniões eram negativas”, indicou Carlos Calvário. Mas eram apenas opiniões: quanto a esses casos polémicos, já referidos, o responsável lembrou que no BES “a comissão executiva podia aprovar créditos com mau rating ou créditos sem rating“. Aliás, no caso do BES a comissão executiva até tinha a prerrogativa de se sobrepôr (over-ride) a um rating, embora este ficasse sempre registado.

Porém, “que eu me lembre, esse poder não foi utilizado”. Os créditos acabaram, porém por ser concedidos, sem este parecer de risco ou com um parecer de risco desfavorável, indicou Carlos Calvário, notando que “entre os nomes referidos há alguns créditos que foram feitos para financiar compras de ações”, operações que remontam aos anos de 2007 e 2008.

Dívidas “escondidas” no GES? “Tem de falar com Ricardo Salgado”

Na linha da descrição já feita na audição de 2015, Carlos Calvário, ex-diretor do BES na área de risco, recordou que quando soube das divergências entre o passivo “oficial” e o passivo “real” de empresas do Grupo Espírito Santo (GES), passado “alguns dias” a informação foi comunicada ao Banco de Portugal – 18 de novembro de 2013. No início dessa semana, referiu o responsável, foi-lhe comunicada a dimensão real das dívidas, “à frente de Ricardo Salgado” e, depois, o departamento de risco global (que era liderado por Carlos Calvário) “exigiu um papel entregue em mão, com mais informações sobre essa dívida”. Esses dados nunca chegaram e, no final da semana, Calvário transmitiu a informação ao Banco de Portugal e aos auditores.

Na audição parlamentar desta terça-feira, Calvário disse que “quando me foi comunicada o total da dívida, o montante era de tal forma maior, relativamente aos números que eu conhecia, que houve necessidade de pelo menos perceber o que estava a acontecer”. “Era um aumento de 40 e tal por cento, de aumento do passivo da Espírito Santo International”. Passaram “ali alguns dias” e, depois, o responsável terá exigido “um papel entregue em mão, sobre essa dívida”.

“As pessoas que me deveriam ter entregue a documentação, relativamente àquela dívida” eram José Castella, Francisco Machado da Cruz e “responderam várias vezes que estavam a tratar e decorreu alguns dias. Houve insistências da minha equipa, mas esses dados não vieram”. “A certa altura, foi-me transmitido que se eu precisava desses dados tinha de ir pedi-los ao dr. Ricardo Salgado“, afirmou.

E foi isso que ele fez, e Ricardo Salgado referiu-se a um “possível erro de consolidação”, referindo-se ao passivo da ES International. Quanto ao resto, afirmou esta terça-feira Carlos Calvário, será avaliado pela Justiça.

Carlos Calvário foi diretor do BES e responsável no banco pelo acompanhamento da realização do exercício ETRICC2 pela PwC no que se refere à ESI e ao GES – um dos exames à qualidade dos ativos bancários que foram encomendados, naqueles anos, pelo Banco de Portugal (para toda a banca portuguesa).

O gestor, que se manteve no Novo Banco como diretor-coordenador do Departamento Técnico de Imobiliário, saiu da instituição em maio de 2016 quando o banco prescindiu dos serviços e rescindiu. Desde 2017 é secretário-geral da ASAVAL – Associação Profissional das Sociedades de Avaliação.

Já tinha sido ouvido na comissão de inquérito que, entre 2014 e 2015, analisou as circunstâncias do colapso do BES. Nessa altura, indicou que o BES foi identificando ao longo do tempo a existência de algumas fragilidades ao nível da gestão do BESA, nomeadamente no que se refere aos mecanismos implementados em termos de risco operacional ou a ausência de regras de boa ou transparente governação, sem que tenha sido capaz de os ver ultrapassados até ao final de 2012.

Alguns destes alertas, nomeadamente no que se refere à ausência de informação suficientemente detalhada e existência de riscos de eventual concentração excessiva de exposição a dívida soberana de Angola foram lançados em 2009 pelo próprio Carlos Calvário junto das áreas relevantes do BES e posteriormente alvo de informação igualmente transmitida ao Banco de Portugal.

Após alguma resistência inicial, face aos pedidos de Carlos Calvário, no sentido de ser dado a conhecer detalhadamente o passivo da ESI, este terá sido finalmente revelado. Segundo o gestor, face à inesperada dimensão do passivo, terá sido dito a Carlos Calvário, por José Castella (que morreu em 2020) e Francisco Machado da Cruz (o “contabilista do GES”), que apenas Ricardo Salgado poderia explicar as origens desta situação.

Carlos Calvário afirmou ainda, na primeira comissão de inquérito, que soube do problema do passivo da ESI a 12 de Novembro de 2013, numa reunião em que participou com José Castella e Francisco Machado da Cruz, onde o informaram de que “a dívida não estava correta” e que “só Ricardo Salgado poderia explicar os motivos.” Carlos Calvário afirmou, também, ter tido depois uma reunião com Ricardo Salgado, referindo na CPI, quanto a esta, que “falou-se de muita coisa, mas eu não fiquei esclarecido”.

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