Arquivo para a categoria ‘Auditoria EY’

A banca que se dizia moderna, mas que era arcaica

Sexta-feira, Janeiro 25th, 2019

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Negócios Opinião Bruno Faria Lopes

Gostava de acreditar em Paulo Macedo quando diz que o relatório final de auditoria aos maus créditos da Caixa é “substancialmente diferente” da versão preliminar. Mas não consigo. Isso significaria um desfecho “substancialmente diferente” deste filme e nós, que somos produtores deste filme, já sabemos como termina: o contribuinte morre no final.

Perante os títulos de jornais sobre o relatório e a vaporização de seis mil milhões de euros do erário público desde 2002, a explicação mais imediata é, como sempre, a que fulaniza. A fulanização é útil até certo ponto. Permite responsabilizar gestores que em alguns casos continuam espalhados pelas administrações de bancos relevantes, como o Novo Banco e o BCP – é pouco provável que passem pelo crivo do Banco Central Europeu para futuros cargos de administração nos maiores bancos do país. Permite apurar eventuais responsabilidades criminais. E permite avaliar a conduta governativa de quem foi tutelando o banco público.

 

A tendência para focar em pessoas – gestores e políticos – não passou, de resto, ao lado de quem encomendou a auditoria e de quem a fez. É interessante que os auditores, pelo menos nesta versão preliminar, não isolem temporalmente as falhas graves e muitas vezes injustificadas de cada administração – os anos negros de Santos Ferreira e Vara por exemplo, surgem misturados com os de outras administrações, diluindo convenientemente as responsabilidades e os danos. Pode funcionar para o escrutínio do público, mas dificilmente resultará junto do BCE (ou da Justiça).

 

A auditoria do relatório da EY revela, contudo, muito mais do que a conduta de A ou de B: mostra a cultura de gestão arcaica que dominou a Caixa até há pouco tempo. Um banco cujo sistema de controlo de gestão é deficiente (impedindo um administrador de poder perceber facilmente o que se passa nas subsidárias, por exemplo), que não gere a carteira em função do rating dos clientes, que não estabelece níveis mínimos de colaterização dos créditos e que não sabe recuperar crédito – para dar apenas alguns exemplos do que leio e ouço sobre a CGD – revela enormes deficiências institucionais.

 

Este arcaísmo na gestão não é exclusivo do banco público. Basta olhar para os problemas no ex-BES e no BCP, bancos cujos problemas financeiros não ficaram aquém dos da Caixa. Durante anos ouvimos que esta banca portuguesa era um exemplo de inovação comercial, que os balcões eram melhores e mais bonitos, que a tecnologia era mais avançada do que lá fora. O que ficámos a saber com o choque da maior crise económica em democracia é que bom marketing e boa tecnologia não substituem o coração do negócio bancário: a gestão do risco.

 

A modernaça banca portuguesa, assessorada por consultoras de topo e gerida por senadores com peso no espaço público, era arcaica na gestão do risco. Este contexto institucional facilitou a má conduta e má gestão. A excepção esteve nos bancos geridos ou detidos pelos melhores bancos espanhóis: o Santander/Totta e o BPI.

É bom recordar isto da próxima vez que ouvirmos críticas estafadas à “invasão espanhola” na banca. Como é bom valorizar a evolução das regras europeias para a banca (o arcaísmo não é um exclusivo português) e a supervisão oriunda de Frankfurt – juntamente com a renovação geracional nos bancos é o que permite ter alguma esperança num futuro menos medíocre numa área crucial da economia.

 

Auditoria à CGD: equipa de Santos Ferreira controla topo na banca

Sexta-feira, Janeiro 25th, 2019

Citamos

Público

Ex-presidente da CGD, um dos principais visados pela auditoria da EY, foi o presidente de vários gestores que ocupam actualmente lugares de destaque no Banco de Portugal, CGD, BCP e Novo Banco. Documento explosivo da EY pode indiciar falsificação de contas na Caixa.

As administrações do Banco de Portugal (BdP), da Associação Portuguesa de Bancos (APB) e dos três maiores bancos a operarem em Portugal são presididas e integradas por executivos que, entre 2004 e 2012, estiveram na Caixa Geral de Depósitos (CGD) e no BCP em equipas lideradas por Carlos Santos Ferreira. Um dos principais rostos visados no relatório de auditoria da EY por ter caucionado no banco público a aprovação de centenas de milhões de euros de créditos de favor, especulativos ou orientados politicamente, que acabaram por ter consequências milionárias no bolso dos contribuintes.

No lote dos gestores actualmente em funções no sector financeiro e que ocuparam cargos executivos quando Santos Ferreira chefiou os dois principais bancos – a CGD (2005 e 2008) e o BCP (entre 2008 e 2012) – estão, por exemplo, os presidentes da CGD, o antigo ministro Paulo Macedo, do BCP, o recém-nomeado Miguel Maya, e, do Novo Banco, António Ramalho (o administrador financeiro do BCP entre 2010 e 2012). Mas outros mantêm também intacta a confiança do Banco de Portugal: Vítor Fernandes (ex-CGD, ex-BCP) está com António Ramalho no Novo Banco, José João Guilherme (ex-BCP) está com Macedo na CGD, Luís Pereira Coutinho (ex-BCP) está com Francisco Lacerda no Banco CTT e Francisco Bandeira (ex-BPN, após nacionalização e ex-gestor da CGD) preside a várias participadas do grupo estatal.

A “escola” Santos Ferreira (que se mantém em órgãos sociais não executivos do BCP, pelo seu “bom” relacionamento com os investidores chineses) faz-se igualmente representar no BdP pelo governador Carlos Costa. Em 2005, Costa transitou do BCP para a administração da CGD, na qual esteve três anos, período em que se sentou ao lado de Armando Vara, de Vítor Fernandes, de José Berberán Ramalho e de Norberto Rosa (ex-vice-presidente do BPN após nacionalização). Em 2013, Norberto Rosa (esteve na gestão da CGD até 2011) tornou-se consultor da administração do BdP e passou entretanto a administrador do seu Fundo de Pensões. Agora, acabou de chegar à APB ao lado de Faria de Oliveira, depois de ter saído da lista de Miguel Maya, no BCP. Já José Ramalho foi requisitado à gestão do banco público em 2010 para ser vice-governador de Carlos Costa e hoje está à frente do Fundo de Resolução.

O presidente da APB, Fernando Faria de Oliveira, é outro dos ex-presidentes da CGD destacados pela EY por ter tido práticas irregulares de gestão. Passou de administrador a líder do grupo, quando Santos Ferreira, Armando Vara e Vítor Fernandes saíram para o BCP, num movimento “directo” que ficou conhecido como “o assalto” ao poder do banco rival, palco, desde 2006, de uma guerra pelo controlo da sua governação. Hoje, apenas Vítor Fernandes se mantém em funções executivas no Novo Banco. Já Armando Vara, tido como braço direito de Santos Ferreira, acabou por deixar o BCP em 2010, após ser constituído arguido no processo Face Oculta. Acabou por ser detido já este mês por operações de crédito ilícitas realizadas enquanto executivo da CGD.

Um olhar mais atento às conclusões da auditoria da EY permite tirar ilações “explosivas”: ao longo de vários anos a CGD pode não ter apresentado contas certas. É que, ao não reconhecer nas contas a verdadeira dimensão dos créditos incobráveis apurados, acabou a divulgar números melhorados – o que pode indiciar um eventual crime de manipulação de contas.

Em 2016, António Domingues propôs ao Governo aumentar o capital da CGD em quase cinco mil milhões de euros para tapar os buracos, o que gerou grande ruído e acabou por não ser aceite. Ao fim de meio ano em funções, Domingues demitiu-se em confronto aberto com António Costa, que o convidara. E para o seu lugar o Governo (com o apoio da oposição e do Presidente da República) foi buscar Paulo Macedo, antigo membro da equipa de Santos Ferreira no BCP.

Os números são elucidativos: a 17 de Julho de 2016, o PÚBLICO apurou o volume das perdas do sector (17 mil milhões, no total). No caso da Caixa, entre 2011 e 2015, por decisões de crédito que remontam à década anterior, o banco contabilizou seis mil milhões de euros de imparidades: 4,2 mil milhões de empréstimos (a carteira de crédito em balanço é de 67 mil milhões) da banca de investimento e em project finance. Um montante de 1,8 mil milhões de euros resultou de investimentos na PT, na Zon (agora Nos), na Cimpor e no BCP, bem como em projectos imobiliários.

Na auditoria da EY revelada esta semana, os números são menores, por terem sido apenas contabilizados os grandes clientes: mil milhões de perdas com 200 créditos avaliados em três mil milhões. Entre eles, destacam-se sete grandes operações de financiamento que se traduziram em perdas de 500 milhões.

Ainda segundo a auditoria da EY, foram identificadas operações de crédito cuja aprovação foi tomada exclusivamente pela administração. Essa situação deu-se em 7% dos casos relativos a grandes devedores, ignorando a avaliação de risco obrigatória nestas operações. Adicionalmente, 21% dos empréstimos aprovados foram-no sem recurso a qualquer apoio técnico. Há casos ainda de créditos sem garantias ou com falta de informação ou de dados técnicos. Na auditoria pode ler-se que várias operações problemáticas foram “aprovadas com parecer de análise de risco desfavorável, não se encontrando documentadas as justificações para a tomada de risco contrária ao parecer” da direcção de risco.

As suspeitas centram-se numa “intencional prática de favorecimento de determinados agentes económicos em detrimento de outros” e de uma omissão “deliberada” do incumprimento de determinados créditos. Esta investigação arrancou durante a breve passagem de António Domingues pela presidência da CGD.

Risco político

Partindo do pressuposto de que as práticas seguidas pela equipa de Santos Ferreira na CGD foram replicadas no BCP, consegue perceber-se o que também ali se passou: entre 2011 e 2015, o BCP registou perdas 7,8 mil milhões por imparidades, dos quais 5800 milhões por empréstimos declarados de cobrança duvidosa.

As interligações de alguns dos administradores da CGD e do BCP apontam para proximidade dos partidos do bloco central: Santos Ferreira, Vara, Francisco Bandeira assumem-se como socialistas, enquanto Faria de Oliveira, António Ramalho, Paulo Macedo ou António de Sousa são associados ao PSD.

Hoje o risco é também político e pode rebentar em São Bento, dado que alguns dos créditos ruinosos foram dados por orientação de José Sócrates. Só com os financiamentos dados a clientes para compra de acções do BCP (que depois apoiaram a ida de Santos Ferreira para o banco privado), e com a própria participação do banco público, a CGD perdeu 595 milhões de euros, apurou a EY.  Um processo político e em que, na prática, Sócrates, o ex-ministro das Finanças Teixeira dos Santos (hoje a presidir ao EuroBic) e o então governador do BdP, Vítor Constâncio, acabaram a apoiar os grandes devedores da CGD, como Joe Berardo e Manuel Fino, clientes e accionistas minoritários do BCP. E os rostos de uma guerra em que alinharam com Filipe de Botton, Alexandre Relvas, Rafael Mora, Nuno Vasconcelos, Vaz Guedes, António Mexia (a representar a EDP) e até o ex-governador do BdP, actual presidente de um fundo de private equity António Sousa, e ex-presidente da CGD de 2000 a 2004, cuja gestão é também mencionada no relatório da EY por práticas irregulares.