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“Entregar o Novo Banco a um fundo-abutre norte-americano é uma autêntica irresponsabilidade”

Domingo, Março 5th, 2017

Citamos

Diário de Notícias

“Fundos como a Lone Star são os chamados fundos abutres, que o que fazem é vender ativos muito rapidamente para o máximo de dinheiro possível no menor espaço de tempo”, diz a líder bloquista

Sistema financeiro. Há aqui divergências claríssimas: a prioridade do governo é que não haja ajudas do Estado, mesmo que o Novo Banco seja vendido por muito pouco – isto é claro. Está confortável com esta solução? Quer igualmente que seja o Parlamento a tomar uma decisão sobre esta matéria?

Nós achamos que é uma má escolha. A resolução do BES foi muito malfeita. É, aliás, julgo eu, caso de enorme preocupação, até pelas consequências que continua a ter. Era importante nós deixarmos de fazer o que foi feito sempre, até agora, com a banca privada, que é: quando há um problema coma banca privada, chega-se à frente fundos públicos para resolver o problema, porque não podemos deixar os bancos caírem sem mais, porque ficariam em causa todos os depositantes, todas as empresas, capacidade produtiva, empregos, habitações, etc… que dependem desses bancos. E, portanto, chegamos à frente com dinheiro público e, depois de pagar o problema com o dinheiro público, voltamos a entregar os bancos aos privados para eles fazerem exatamente o mesmo que faziam antes e entregarem-nos, passado um bocado, outra vez o banco com um buraco. E é preciso parar esta lógica. E a única forma de parar esta lógica é o controlo público. O controlo público não é o controlo do Banco de Portugal, que é o regulador, nem é o controlo pelo Fundo de Resolução, que de facto é a ordem do Banco de Portugal e…

Pertence aos bancos.

…pertence aos bancos. É, portanto, assumir que o dinheiro público que já lá está é uma compra pelo Estado desse banco e esse banco passa a ser público.

Mas tem custos, para o Estado, ficar com o Novo Banco, não é? Primeiro, porque é preciso uma capitalização do banco, é preciso assumir o dinheiro que foi colocado no Fundo de Resolução…

Sim, mas tem imensos custos vender a privados. Porque os privados nunca pagam aquele dinheiro público que já lá está – e quando vemos, por exemplo, que são fundos como a Lone Star, ou seja, que são os chamados fundos abutres, que o que fazem é vender ativos muito rapidamente para o máximo de dinheiro possível no menor espaço de tempo; portanto, não têm uma ideia de consequências económicas nem sociais…

Mas o Estado pode negociar com a Lone Star a forma como vende e as garantias que a Lone Star tem de dar, não é?

Tanto quanto nós compreendemos sobre tudo o que está em cima da mesa, não há nenhum comprador – a Lone Star não o é certamente – que vá pagar ao Estado o que o Estado já colocou no Novo Banco ou que tenha uma visão de prazo para a gestão dos ativos do Novo Banco. O que significa que nós nos arriscamos a duas coisas: a perder o dinheiro público que já lá pusemos, por um lado e, por outro lado…

Isso são os bancos que têm de pagar, é o fundo de Resolução que tem de devolver o dinheiro ao Estado.

Os bancos têm de pagar… Eu lembro que se dizia que os bancos iam pagar em dois anos e depois a dívida dos bancos foi restruturada e já vai em 20. E eu pergunto se alguém acha que daqui a 20 anos os bancos vão pagar ou se [risos] os bancos vão ter uma qualquer crise financeira, entretanto, e nós já os pagámos a eles todos muito antes, sequer, de eles entregarem esse dinheiro. Portanto, eu acho que é bom, a bem da honestidade, nós começarmos a falar da banca como ela é, em vez de estarmos a falar como se fosse algo de estável daqui a 20 anos. Não é verdade! Sem controlo público, isso não é verdade.

Mas, responda-nos se puder, vai levar este assunto ao Parlamento para ser o Parlamento, para ser uma maioria parlamentar a decidir?

Nós achamos que assim deve ser e vamos usar os mecanismos que estiverem ao nosso dispor para isso. É preciso que as pessoas compreendam que os bancos não são entidades abstratas. Ou seja, quando a Lone Star ficar com o Novo Banco e os contribuintes com o prejuízo, a Lone Star, além de ter dado o calote aos contribuintes, porque nunca vai pagar o dinheiro que está no Fundo de Resolução, vai ficar na sua mão com o poder de destruir ou não postos de trabalho, capacidade produtiva de empresas, deitar famílias para fora das suas casas de habitação porque não conseguiram pagar os seus créditos por causa de situações de desemprego, etc. E, portanto, o Estado corre o risco de ficar com o buraco do Fundo de Resolução, mais o problema económico da capacidade produtiva destruída, mais o problema social do desemprego ou das pessoas que foram despejadas das suas habitações. Os bancos e os ativos dos bancos são, em boa medida, muito concretos e os custos da sua má gestão são custos económicos e sociais. E entregar isso a fundo-abutre norte-americano é uma autentica irresponsabilidade, não só do ponto de vista do Fundo de Resolução, mas também do ponto de vista do longo prazo.

“Não vemos o governo a andar em matérias que estão na posição conjunta e no seu programa”

Domingo, Março 5th, 2017

Citamos

Diário de Notícias

A coordenadora do Bloco de Esquerda, Catarina Martins, fala do governo num tom critico a propósito da venda do Novo Banco, da legislação laboral que “não anda” e do défice conseguido com “forte contração do investimento”.

O dirigente do Partido Socialista, Porfírio Silva, propôs que PS, Bloco, PCP e PEV conversem entre si para elaborar uma agenda para a década. Um acordo, portanto, bastante mais alargado do que aquele que existe. Faz sentido, para o Bloco, iniciar esta conversa?

Nós temos uma conversa em curso, que ainda não está acabada e que nós queremos executar. As diferenças entre o Bloco e o Partido Socialista são conhecidas, do ponto de vista do desenvolvimento do país, da sua relação com a União Europeia; não foram ultrapassadas pelo acordo que fizemos. Mas o acordo que fizemos tem matérias que precisam de um grande desenvolvimento e que são fundamentais para o futuro. Desde logo, as matérias que dizem respeito ao Estado Social e aos serviços públicos. E são matérias nas quais ainda não começámos a trabalhar, essas e a agenda de direitos laborais. E, portanto, não precisamos de uma nova agenda, mas precisamos seguramente de uma nova determinação para cumprir a agenda a que nos propusemos, principalmente nestas duas matérias: serviços públicos e direitos do trabalho.

Em termos concretos, em que é que se traduzem essas duas grandes preocupações?

Do ponto de vista do trabalho, não temos exatamente as mesmas posições, mas tínhamos a convicção comum de que é preciso contratação coletiva. Da nossa parte, isso exige algumas alterações na legislação laboral porque a contratação coletiva começou a diminuir em Portugal: passou de dois milhões de trabalhadores para 200 mil, quando também houve alterações na legislação laboral para diminuir essa contratação coletiva.

Mas aí o PS está de acordo, nessa área específica.

Não está porque ainda não alterou a legislação. Há depois matérias que estão no próprio programa do governo, nomeadamente o fim do banco de horas individual, que faz um abuso sobre as horas extraordinárias de quem trabalha e transforma… aliás, é um quotidiano terrível. Nós vivemos num país em que quem trabalha, trabalha horas demais e temos muita gente a precisar de emprego e que não tem. E, portanto, essa é uma matéria que está no programa do governo e que ainda não avançou. E há outras matérias: sobre a precariedade, nós temos um plano que está a andar, mas estamos ainda na parte de diagnóstico – precisamos ainda da parte mais difícil, mais dura, que é depois a concretização que permita que as pessoas tenham vínculos laborais decentes -; e há a parte sobre a penalização das empresas que recorrem à precariedade. Ou seja, está no próprio programa do governo uma penalização, em sede de Taxa Social Única, das empresas que têm uma rotatividade muito grande de trabalhadores. E nós ainda não vemos o governo a andar nesta matéria. São avanços de legislação laboral que fazem parte das posições conjuntas e do programa do governo.

Isso é, portanto, aquilo de que o Bloco de Esquerda se reclama ainda credor da ação governativa que faz parte do acordo que tem firmado com o Partido Socialista?

O acordo foi fruto de uma negociação, como é fruto de uma negociação aquilo que vamos fazendo em conjunto. A questão dos direitos laborais é essencial em Portugal. Nós vivemos num dos países com salários mais desiguais, com o salário médio mais baixo, em que as pessoas trabalham mais horas por ano, em que as condições de trabalho não nos orgulham. Não podemos estar orgulhosos, enquanto país, da condição de trabalho da maior parte das pessoas. E, portanto, a legislação do trabalho tem de ser uma prioridade, porque é a forma de redistribuir riqueza, é a forma de criar emprego, é a forma de as pessoas serem respeitadas e, portanto, é essencial à democracia. E depois há outra parte, também, que tem a ver com os serviços públicos. Nós precisamos de investimento nos serviços públicos para eles poderem funcionar. Ou seja, o acesso das pessoas ao Serviço Nacional de Saúde está dependente de investimento no Serviço Nacional de Saúde, o acesso, a qualidade da escola pública está dependente de investimento na escola pública. As questões da justiça, sendo muito complicadas, estão mais complicadas ainda por falta de investimento. E o acordo que nós fizemos tinha uma parte importantíssima e que está cumprida, que é que não haveria mais privatizações dessas áreas centrais – que era o que estava previsto, aliás, no programa da direita: PSD e CDS queriam entregar a privados uma série de áreas que são o coração do Estado Social e dos serviços públicos. Mas não chega! É agora preciso que eles funcionem e, portanto, falta-nos o investimento. Nós temos, neste momento, escolas com baldes quando chove. Não é assim que se aprende em Portugal! Por exemplo, no setor da saúde, para recuperar os equipamentos que estão obsoletos – porque, como não houve investimento estes anos todos. Para dar conta dessa necessidade de substituição dos aparelhos de ressonância magnética são precisos 800 milhões de euros. É um investimento que tem de ser feito.

“Seria um erro se o governo decidisse as PPP na Saúde sem um debate no Parlamento”

Nas parcerias público-privadas da saúde, haverá nesta legislatura decisões sobre Cascais e Braga e o governo defende, neste caso, que elas não terão de passar pelo Parlamento. O Bloco vai fazer o que puder para derrotar o Executivo no Parlamento?

Para sermos claros, se o governo fosse do Bloco de Esquerda, nós não estávamos a pôr em cima da mesa só as PPP de Braga e Cascais; estávamos a pôr em cima da mesa todas as PPP do país. O Bloco tem uma postura clara: as PPP foram contratos ruinosos para o erário público e que não deram nada ao serviço público, na nossa opinião. Agora, exatamente, o governo não é do Bloco de Esquerda, é um governo do Partido Socialista. E o que o Bloco de Esquerda desafia o Partido Socialista a fazer é: nos dois casos em que não há nenhum problema de litigância em tribunais, que são contratos que estão a chegar à frente, que se faça o que é razoável, o que corresponde até a uma expectativa de mudança à esquerda no país – que é a expectativa e que é maioria dos votos que fez sentir das eleições e que permitiu esta solução – e que se acabem com as PPP. A PPP de Cascais, que é a primeira acabar, para termos uma ideia, custou mais ao Estado, do que custaria o mesmo hospital gerida do ponto de vista público, em 50 milhões de euros.

Mas não é verdade para o caso de Braga.

É verdade.

Os dados que existem é que Braga é um dos hospitais mais bem geridos do país, naquela dimensão.

Não, quando se compara na dimensão, os hospitais PPP recebem mais por serviço do que os hospitais públicos. O que acontece é que nos hospitais públicos não se separa a infraestrutura da gestão: é o hospital como um todo. Nestes hospitais há uma PPP da infraestrutura, da construção, e outra PPP da gestão e, portanto, separamos as contas, coisa que não fazemos nos hospitais públicos. E, portanto, no hospital público, quando vemos o dinheiro de uma operação, vemos o dinheiro que custa todo o aparelho, o edifício do hospital existir, toda a maquinaria, todos os profissionais necessários para fazer aquela cirurgia; quando falamos da PPP de gestão, retiramos tudo o que tem a ver com a infraestrutura e só estamos a falar do custo daquela cirurgia como se fosse isolada e, portanto, as contas não são comparáveis.

O governo diz que se a melhor opção, ou seja, a mais barata, pela mesma qualidade ou melhor qualidade for pela parceria público-privada que a manterá.

Claro. Mas isso partiria de um princípio que era que os privados trouxeram um qualquer conhecimento de gestão para os hospitais do SNS que o SNS não teria. E, de facto, isso não é verdade. Porque o que os privados fizeram foi ir buscar as pessoas que geriam hospitais públicos e contratá-las para gerir os hospitais. Ou seja, os privados não trouxeram nada. Porque é que os privados vieram para a gestão dos hospitais públicos? Não foi porque trouxessem um know-how de gestão, porque não trouxeram – foram buscar ao SNS; não foi porque ficassem mais baratos, porque não ficam – custam o mesmo mais o lucro que têm de ter; não trouxeram melhor trabalho em rede colaborativa entre os hospitais, porque têm uma visão muito mais dos indicadores só do seu hospital e, portanto, temos aquelas situações de mandarem doentes mais caros para outros hospitais do SNS que não são PPP e recusarem ou, pelo menos, terem muito mais resistência a aceitar doentes que vêm de outros hospitais e, portanto, são problemas no SNS e na sua capacidade colaboração. Fizeram-no porque os privados da saúde queriam ganhar escala, em Portugal; para o setor privado da saúde ganhar [escala]. Ou seja, isto não tem a ver com o interesse público, tem a ver com o interesse de um setor privado, na saúde, para se instalar. E há quem ache, como por exemplo o senhor Presidente da República, que é importante que exista um setor forte privado da saúde em Portugal. O Bloco de Esquerda acha que essa não é uma prioridade do Estado, não deve ser uma prioridade dos contribuintes, não nos interessa. Mas mesmo que acreditássemos nisso – que nós não acreditamos -, convenhamos que o setor privado da saúde já cresceu muito, em Portugal, e que é completamente inaceitável que continuemos a pagar a existência de um setor privado da saúde em Portugal. Aliás, António Arnaut – que é presidente honorário do Partido Socialista, considerado um dos fundadores, o pai do SNS – já o avisou e bem: quanto mais cresce o setor privado da saúde em Portugal, mais ataca o SNS. Ou seja, neste momento, o setor privado é uma esponja que está a levar recursos públicos, mas também a própria massa crítica profissional, para o setor privado, está a viver porque faz contratualizações com o Estado, seja nas PPP, seja as contratualizações para meios diagnósticos, seja as contratualizações para cirurgias, etc., com dinheiro público e está a minguar os hospitais do SNS. Isto é um problema! E é um problema tão mais grave que agora está em cima da mesa a abertura de uma universidade de medicina privada em Portugal. E eu devo dizer que o Bloco vê com muita preocupação quando percebemos que, ao mesmo tempo que a Ordem dos Médicos e o governo decidem numerus clausus tão baixos para a saúde e não deixam os alunos que querem estudar Medicina poderem estudar Medicina para termos médicos, depois veem com bons olhos e temos até ter um secretário de Estado que pode star presente na inauguração de uma universidade privada de Medicina. Andamos a brincar, por um lado, com os estudantes que querem ser médicos e, por outro lado, com os recursos do SNS em nome, mais uma vez, do crescimento de um setor privado da saúde. E o Bloco de Esquerda não vai estar de acordo com isso e vai usar todos os seis meios para parar aquilo que consideramos que é uma sangria de meios do Serviço Nacional de Saúde para o setor privado.

E isso significa que vão levar o tema à Assembleia da República. Não havendo necessidade de ser feito com decreto-lei, um projeto de resolução não tem poderes vinculativos. Vão ter de se conformar com isso?

Não temos de nos conformar com nada. Temos de fazer o debate político e a disputa política como sempre fizemos. Fazemo-lo de uma forma muito clara.

Mas vai exigir que a decisão passe pelo Parlamento ou não?

Seria um erro se o governo o fizesse sem debate. Eu acho que ninguém no país compreenderia se o governo entregasse hospitais públicos a grupos privados sem sequer essa discussão ser tida no Parlamento como deve de ser.

“O processo de inclusão dos precários tem de ser levado a sério”

Portanto, essa discussão será feita no Parlamento. Olhando para outra matéria em que também há um acordo à esquerda, que tem a ver com os precários no Estado. Há pouco estava a falar da precariedade – o Bloco, aliás, lançou um cartaz no país contra a precariedade no Estado e nos privados. A verdade é que o governo já disse – esta é uma das bandeiras do Bloco de Esquerda -, o governo já disse que há constrangimentos orçamentais e, portanto, isso significa que pode dar-se o caso de nem a todas as necessidades permanentes vir a corresponder um contrato efetivo. Tem isso negociado com o governo?

Nós temos um acordo feito com o governo, é um acordo com duas partes: uma tem a ver com combater a precariedade no privado, outra no público. No privado, é uma alteração da lei de combate à precariedade que permite que os mecanismos automáticos, que já existem para recibos verdes, sejam fortalecidos, para proteger os trabalhadores e para quando a Autoridade para as Condições do Trabalho vê que há uma situação de dissimulação do vínculo laboral, com um falso recibo verde, poder atuar e automaticamente haver um vínculo laboral com um contrato permanente dessas pessoas; e isso ser alargado a outras formas de dissimulação – contratos a prazo que são ilegais, falsos outsourcings, etc. E, por outro lado, reforçar claramente os meios da Autoridade para as Condições do Trabalho, que é a única forma de sermos efetivos. E, do ponto de vista do Estado, fazer um diagnóstico da precariedade no Estado, encontrar unidades que façam serviço a serviço, ministério a ministério o apuramento de quantos lugares no quadro é que devem ser abertos. Essas unidades, por pressão do Bloco de Esquerda, terão representação sindical também e, portanto, serão também uma instância de recurso para todos os trabalhadores que sentem que a sua situação não foi contemplada. E, depois, a vinculação das pessoas, com um concurso que tenha em atenção a necessidade de respeitar quem já está naquela função há muito tempo de forma precária. Porque a ideia é vincular quem trabalha de uma forma precária para o Estado – tanto o Estado Central, como as autarquias, como o setor empresarial local e central. Este é um processo que terá o seu tempo. Nós gostaríamos que fosse mais rápido, terá o seu tempo. A ideia é que em outubro tenhamos já gente vinculada por este processo. E nós achamos que este é um processo que tem de ser levado a sério. E levado a sério significa que todas as necessidades permanentes terão de ter um contrato permanente.

Mas quando ouve membros do governo a lembrar que há constrangimentos orçamentais e que é preciso ter isso em conta…

O que é que significa estes constrangimentos orçamentais? Por exemplo, no Centro Hospitalar do Oeste, que contrata todo o tipo de trabalhadores para o hospital, desde as pessoas que tratam das limpezas até administrativos, através de uma empresa de outsourcing, a empresa de outsourcing recebe um milhão de euros além dos salários dos trabalhadores. Não faz absolutamente nada a não ser passar recibos de contrato, ou seja, não organiza nenhum serviço, não faz nada. Porque é que o Estado está a gastar esse milhão de euros com essa empresa? Porque é que isso não são salários de trabalhadores com contrato permanente? Ou seja, nós não estamos a falar de contratar mais gente, embora o Bloco ache que é preciso mais gente em muitos serviços públicos, mas isso é uma outra discussão. Em relação àquilo de que estamos a falar agora, é dar um contrato permanente a quem já está a trabalhar. E, portanto, o problema orçamental – sendo certo que, nalguns casos, não pode ficar tudo na mesma com a entrada para a Função Pública – não é um argumento de que vamos contratar mais não sei quantas pessoas e que vamos gastar mais esses salários todos. As pessoas já estão a trabalhar, as pessoas já estão a receber o seu salário.

O Estado já está a gastar dinheiro. A questão tem a ver com o compromisso que o Estado, enquanto entidade patronal, assume. Por exemplo, escolas: a ideia de que vai haver, em três anos, menos 700 ou 800 turmas pode pressupor que vai haver uma necessidade menor de professores e isso significa que, se houver um contrato efetivo, depois as escolas passam a ter professores a mais.

Portugal tem poucas qualificações. Eu percebo o problema demográfico da escola, em Portugal. Mas veja bem: nós temos menos qualificações que os outros países, o ensino obrigatório foi passado há pouco tempo para 12 anos, temos de estender o pré-escolar, que ainda não chega a todas as crianças, e temos o problema da qualificação de adultos. Portanto, dizerem-me que nas escolas há gente a mais ou que temos problemas de ter gente a mais…

Pode vir a haver…

…é ter uma visão pequenina do nosso país. Ou seja, não só o país tem de ter condições para que haja natalidade, para que haja imigração e que possa fazer também a sustentação demográfica do país – é assim que ela é feita e que deve ser feita também -, como, objetivamente, Portugal tem necessidades de qualificação tão grandes e de alargamento tanto do pré-escolar como das qualificações entre o 9º e o 12º anos, que nós temos nenhum problema de excesso de professores, nem vamos ter nos próximos tempos. Muito pelo contrário.

“O défice foi conseguido com uma enorme contração no investimento e nos serviços públicos”

Continuando a falar de constrangimentos orçamentais, mas numa outra perspetiva. Eles acabaram por provocar “um pequeno milagre”, ou seja, o défice mais baixo da democracia portuguesa, que foi, aliás, conseguido com o primeiro governo apoiado pela esquerda. Há razões para o Bloco de Esquerda comemorar esta meta ou, pelo contrário, há razões para o Bloco ficar apreensivo pelo facto de o governo ter ido além daquilo que era exigido pela Comissão Europeia?

Nós não somos muito dados a milagres. E também é bom dizer que os números do défice provam aquilo que o Bloco vinha dizendo, ou seja, não há consolidação orçamental sem crescimento económico e sem emprego. A austeridade é inimiga da consolidação orçamental, porque cria desemprego, porque mata a capacidade produtiva do país, porque cria recessão. Portanto, desse ponto de vista, os números do défice vêm provando aquilo que o Bloco de Esquerda vinha a dizer. Ainda bem! Por outro lado, os números do défice mostram também que o governo, para conseguir cumprir determinadas metas europeias – que, ainda por cima, não são cumpridas na totalidade, porque toda a gente sabe que fazemos de conta que não existe o problema da dívida pública, que não se resolve sem uma restruturação e não há nenhuma política económica do nosso país que a vá resolver sem uma restruturação, porque ela tem a ver com a crise financeira internacional, com as assimetrias do euro e, portanto, não podemos resolvê-la noutros sítios que não nestes. Mas é feita por uma enorme contração no investimento e por uma enorme contração dos serviços públicos. A diferença entre 3% de défice, que já serviria para Portugal sair do Procedimento de Défice Excessivo, 2,1% são 1.600 milhões de euros. Estes 1.600 milhões de euros seriam por exemplo, voltar aos anteriores escalões de IRS, que são tão importantes para recuperar o rendimento das famílias; ou então, por exemplo, seriam os 800 milhões de euros de que precisamos no Serviço Nacional de Saúde para substituir equipamento obsoleto e para pararmos de estar a pagar aos privados aquilo que devíamos estar a fazer no Serviço Nacional de Saúde; ou para recuperar as escolas que estão fora do plano, agora, de recuperação do governo e onde há crianças e jovens a estudar e que têm ser recuperadas.

E tem mantido conversas com o governo sobre isso? Estão a trabalhar para, de facto, haver mais investimento público e menos preocupação como défice?

O Bloco de Esquerda preocupa-se com o défice. Às vezes há uma ideia de que nós não temos nenhuma preocupação com o défice…

É a diferença entre o valor do défice estar abaixo dos 3% ou estar no 1,7%, que é a previsão do governo…

O problema é saber qual é o objetivo. Ou seja, nós achamos que os países devem ter défices baixos. O problema é que nós reconhecemos que o nosso país não será capaz de controlar o problema do défice sem resolver o problema da dívida e é preciso uma restruturação da dívida porque nós gastamos mais em juros da dívida do que em todo o Serviço Nacional de Saúde e, portanto, estamos aqui num problema insolúvel. Porque um país deve ter contas saudáveis, é isso que nós defendemos. Agora, nós temos conversado com o governo, seguramente, sobre a necessidade de haver investimento nos serviços públicos e de haver investimento que possa criar emprego. Porque, se já foi provado, como o caminho até agora, que a recuperação de rendimentos era boa para a consolidação orçamental, é também lógico que o investimento será bom para a consolidação orçamental. Um país que funciona melhor é um país que tem contas públicas mais fortes. E, portanto, é preciso dar esse…

Como é que será possível fazer isso com uma meta que aponta para um défice de 1,7%, sendo que, entretanto, haverá uma parte da recapitalização da Caixa – e já vamos falar disso – que vai entrar no défice e, portanto, a pressão durante 2017 vai ser enorme e não se vai cumprir, muito provavelmente, o 1,7%, porque não é possível se entrar dinheiro da capitalização da Caixa?

Um dos maiores problemas de termos tido um défice tão baixo o ano passado é a pressão europeia para um défice ainda menor este ano e, portanto, haver um garrote maior sobre o investimento e sobre a capacidade dos serviços públicos de responderem. É por isso que o Bloco de Esquerda acha que é um erro querer-se ser sempre o bom aluno da Europa, ou seja, o bom aluno das más políticas. São políticas que estão a provocar problemas económicos, democráticos, sociais etc. por toda a Europa e este governo mantém o consenso europeu, digamos assim, que existe entre a direita conservadora e os socialistas europeus para cumprirem estas metas impossíveis e que não permitem aos países reconstruírem as suas economias como é preciso. Isso preocupa-nos. No Bloco de Esquerda achamos que a governação deve ser feita para contas saudáveis, que as contas saudáveis não se medem pelo défice ou só pelo défice, medem-se pela forma como se chega a esse défice e medem-se, seguramente, pelas questões do endividamento externo. E o endividamento externo português mantém-se alto e, portanto, as questões sobre, por exemplo, a fatura energética ou o problema das importações se devem pôr e o Bloco tem trabalhado muito sobre isso. E devo dizer que temos trabalhado com o governo, ou seja, há pontos em que temos trabalhado juntos. Esta semana, o governo reduziu para metade os subsídios às elétricas porque aprovou a proposta do Bloco de Esquerda sobre a garantia de potência no Orçamento do Estado. Portanto, há matérias que pareciam intocáveis aqui há uns tempos – [risos] quantas vezes é que a troika dizia que era preciso mexer nas rendas da energia e nunca se mexeu – e que agora estão a andar. E, portanto, reconhecemos isso e esse é um trabalho conjunto que ainda bem que fazemos. Agora, é certo que para haver…

Não deixa de ver um tom crítico nalgumas das políticas do governo…

Para existir, a prazo, uma redução do endividamento externo do país é preciso não só ter a capacidade de investimento como de restruturar a dívida pública e isso será uma consolidação das contas públicas muito mais sustentável a prazo e muito melhor para a economia do que estar a cumprir números europeus que, de facto, significam muito pouco sobre as condições concretas da nossa vida e da nossa economia.

Mas aí o governo já disse que só fará essa discussão quando a Europa a estiver a fazer em conjunto, que não a fará unilateralmente.

É um erro, porque é uma discussão sempre adiada.

Provavelmente será, mas sem o Partido Socialista e o governo também não é possível fazer essa discussão.

Não significa que não possa haver uma alteração até das maiorias sociais, em Portugal, sobre essa matéria. Eu lembro que há quatro anos ou cinco quando o Bloco de Esquerda falava destas matérias falava sozinho e chamavam-nos caloteiros. Agora, não há nenhum economista, da direita à esquerda, que não reconheça, a bem da honestidade…

Que não fale da dívida pública.

…que é preciso restruturar a dívida pública.

BE: Governo não pede afastamento de Carlos Costa porque complica relações com BCE

Terça-feira, Janeiro 24th, 2017

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Negócios

Catarina Martins continua ao ataque ao governador do Banco de Portugal. Em entrevista ao Público, admite que a litigância em torno do Novo Banco vai ter custos para o Estado. E mostra-se contra os modelos para o veículo do malparado.

A líder do Bloco de Esquerda, Catarina Martins, insiste na retirada de confiança ao governador do Banco de Portugal, Carlos Costa. Em entrevista ao Público, critica os modelos de resolução decretados pelo regulador e defende mesmo que já se deveria ter desencadeado o processo para o seu afastamento. Mas o Executivo não quer, admite.

“O Governo do PS não iniciou nenhuma acção junto do BCE para a sua substituição, nós não concordamos com essa análise”, diz ao Público a líder do terceiro partido mais votado para o Parlamento.

Questionada sobre por que motivo tal não aconteceu, já que os socialistas foram também sempre muito críticos da postura de Carlos Costa, Catarina Martins avança com uma sugestão: “O Governo considera que não tem… Enfim, é melhor perguntar ao Governo do que ao BE, mas, enfim, julgo que é público: o Governo considera que é um processo que é um complicado, ou [que pode] tornar as relações mais complicadas com o BCE”.

Só com uma falta grave é que um governador pode ser afastado. O Governo, pela voz do secretário de Estado do Tesouro Ricardo Mourinho Félix, já afirmou que tal falta havia sido cometida mas o processo para a destituição nunca foi iniciado.

“Nós consideramos que Carlos Costa não tem condições para estar à frente do Banco de Portugal”, ataca Catarina Martins, acrescentando que a venda da instituição financeira herdeira do BES não deveria estar a ser liderada pelo Banco de Portugal. “Sendo públicas as divergências que temos, sendo para o BE um pouco incompreensível como é que o Banco de Portugal continua a gerir o processo desta forma e como é que continua a ter a cobertura, ou a confiança política do Governo para o fazer, eu quero confiar que o ministro terá acesso a informação que justifica todo este tempo”, adianta.

Litigância vai ter custos para o Estado

Segundo Catarina Martins comenta ao Público, são inúmeros os erros cometidos por Carlos Costa, que podem custar dinheiro ao erário público. “A resolução foi de tal formal mal feita pelo Banco de Portugal – a primeira e a segunda – que nós temos processos de litigância que são feitos porque foram protegidos certos credores em detrimento de outros. Aliás, a segunda resolução foi feita protegendo alguma burguesia nacional e penalizar investidores estrangeiros. Vai dar uma litigância tal que sabemos que o Estado vai continuar a ter custos com o Novo Banco”.

A primeira resolução é a medida aplicada a 3 de Agosto de 2014, a segunda resolução referida pela deputada é a transferência de 1.985 milhões de euros em cinco linhas de dívida sénior do Novo Banco para o BES “mau”, como forma de capitalizar o primeiro, a 29 de Dezembro de 2015.

Estes encargos estão no Fundo de Resolução, e não no Novo Banco, mas Catarina Martins considera que não é por isso que o Estado não terá de enfrentá-los, se vier a ser condenado nos tribunais: “Demos a volta que dermos, os custos públicos estão cá, não conseguimos libertar-nos deles”.

Mesmo sem garantia, NB não deve ser vendido

Na entrevista ao jornal diário, Catarina Martins reitera que o Novo Banco deve permanecer na esfera pública. Mesmo que não sejam exigidas garantias estatais pelos compradores. “Continuamos a achar que o mais prudente e razoável é que o banco fique na esfera pública”.

Os fundos Lone Star e Apollo/Centerbridge estão nas negociações finais para a alienação do Novo Banco. O BE quer uma nacionalização mas recusa a ideia de que é permanente ou temporária: “Eu não reconheço nenhuma nacionalização que seja permanente nem nenhuma privatização que seja permanente”. “A democracia é isso: uma decisão em cada momento”, define.

Contra modelo de malparado

É também sobre aqueles a que chama “fundos abutres” que a líder do Bloco de Esquerda se refere para criticar os actuais modelos desenhados para o veículo que vier a ficar com os imóveis e os créditos malparados que, neste momento, estão a pesar nos balanços das instituições financeiras.

Os modelos, desenhados à semelhança de Espanha e Itália, “não resolvem o problema e podem criar novos problemas, ao porem o malparado na mão de fundos abutres e acabando por ter sempre garantias públicas”.

Catarina Martins: “Banco de Portugal está a jogar contra o próprio país”

Sexta-feira, Maio 27th, 2016

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Negócios

A porta-voz do Bloco de Esquerda criticou o aumento de provisões do Banco de Portugal, que levou a que pagasse menos 85 milhões de euros do que no ano passado ao Estado. Costa justificou com regras europeias; na Irlanda nada aconteceu, contrapôs a bloquista.

O Banco de Portugal entregou menos dinheiro ao Estado em 2015 a título de dividendos pela compra de dívida pública. Em causa estão pelo menos 47 milhões de euros em dividendos a menos face a 2014, mais outro tanto em impostos que deixam de ser pagos (38 milhões de euros, de acordo com o relatório e contas da instituição). Catarina Martins diz que este é um “acontecimento estranho” que leva a bloquista a concluir que o Banco de Portugal está a “contribuir de forma negativa para a consolidação” e a “jogar contra o próprio país”.

“O Banco de Portugal compra dívida pública portuguesa, dívida privada, com isso faz juros e tem lucro. Com esse lucro paga dividendos ao Estado, seu accionista”, explicou Catarina Martins. Sucede que no ano passado a instituição “decidiu aumentar as provisões com medo de perdas futuras”, o que “faz com que vá pagar menos 100 milhões de euros em impostos e dividendos” ao Estado, face a 2014. Isso significa que “o Banco de Portugal está a contribuir de forma negativa para a consolidação” quando podia “estar a pôr 300 milhões de euros” no Estado.

Em termos rigorosos, o montante a menos que o Estado recebe relativo a 2015 (que só será pago este ano) é de cerca de 85 milhões de euros, entre dividendos e impostos. Já em 2013, os dividendos pagos ao Estado tinham caído de forma especialmente significativa – mais de 150 milhões de euros, para 202 milhões. Em 2014 voltaram a subir de forma ligeira, para 243 milhões, voltando a recuar no ano passado, para 186,3 milhões de euros.

Questionado pela porta-voz bloquista sobre os critérios do Banco de Portugal, Costa respondeu que não tem “uma informação precisa do montante da alteração”, mas afirmou que “resulta de regra europeia quanto à alteração de provisões em função da dívida adquirida”. Uma explicação que não convence Catarina Martins. “A alteração da regra europeia não ajuda a compreender [o que aconteceu] porque o Banco da Irlanda não fez o mesmo”, notou.

“Não é normal vivermos num país com o Banco de Portugal fazendo o que não se percebe, estando a jogar contra o próprio país”, criticou, mantendo a marcação cerrada ao governador Carlos Costa que a tem caracterizado.

Novo Banco: “Não podemos precipitar nenhuma solução”

Sexta-feira, Abril 29th, 2016

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TVI

Perante o pedido de garantias sobre a venda do Novo Banco, o primeiro-ministro diz que não se pode “precipitar nenhuma solução sem que se demonstre que é a melhor solução”

Catarina Martins atacou o primeiro-ministro sobre a venda do Novo Banco e voltou a insistir que o banco deve ser nacionalizado. Apesar de não descartar a hipótese, António Costa lembrou que estão em período de avaliação de soluções e que não se pode “precipitar nenhuma solução sem que se demonstre que é a melhor solução”.

“É difícil acreditar que o Novo Banco não vai dar prejuízo. A garantia que queria é a de que o Novo Banco não vai ser vendido se a venda der prejuízo”, pediu Catarina Martins a António Costa.

Por sua vez, António Costa considerou “um atrevimento ligeiro ter-se apresentado a resolução do Novo banco como uma solução sem custos para os contribuintes”, porque estes existirão.

“Nós temos de fazer com que a solução para o Novo Banco seja a que tenha menos custos. Não podemos precipitar nenhuma solução sem que se demonstre que é a melhor solução. A venda precipitada do Novo Banco não é só penalizadora para o contribuinte é desestabilizadora do sistema financeiro”.

O primeiro-ministro lembrou ainda que se trata de uma “matéria da maior cautela”, com o “estudo de todas as soluções e a não exclusão à partida de nenhuma”

“A nós não nos incomoda nada ser geringonça”

Nova intervenção, novo tema, e desta vez no âmbito do combate à precariedade, no qual o Bloco de Esquerda diz estar “empenhado”. Catarina Martins trouxe a debate a questão dos bolseiros do Instituto Superior de Agronomia, onde “estão a mandar bolseiros embora a meio de projetos de investigação”.

O primeiro-ministro responde que o Governo tem “conseguido resolver problemas muito difíceis” e, depois, vira-se para a bancada da direita que lança apartes sobre a intervenção.

Sim, sim, é geringonça mas funciona é uma grande vantagem está a ver. A nós não nos incomoda nada ser geringonça mas a vocês incomoda muito que funcione”.

“Quantas falhas graves são necessárias para substituir governador do BdP?”

Sábado, Abril 16th, 2016

Citamos

Esquerda Net

No debate quinzenal, Catarina Martins defendeu a destituição do governador do Banco de Portugal e apresentou a António Costa cinco condições para um programa de limpeza da banca. O primeiro-ministro responde que só tem dúvidas sobre uma delas.

O debate sobre o futuro do sistema financeiro português e a resolução do problema do crédito malparado dominaram as perguntas ao governo por parte da bancada bloquista, que mais uma vez reafirmou a sua oposição a novas ajudas à banca em prejuízo dos contribuintes.

Referindo-se às declarações do governador do Banco de Portugal, que defendeu um banco mau com garantias públicas de 20 mil milhões de euros, Catarina desafiou Costa a dizer se subscreve a ideia, sublinhando que as solução do “banco mau” adotada em Espanha não serviu para colocar crédito na economia e a que a que está em preparação em Itália apenas resolve uma percentagem pequena do crédito malparado.

Na resposta, António Costa afirmou que nunca defendeu uma solução à espanhola ou à italiana e que espera o contributo do Bloco “para uma boa solução à portuguesa” que permita garantir o financiamento à economia, fator essencial para o aumento do investimento e a criação de emprego.

Cinco condições para um “programa de limpeza da banca”

O debate prosseguiu com Catarina Martins a defender um “programa de limpeza da banca” e a anunciar as condições do Bloco para trabalhar nessa solução: “Em primeiro lugar, não pode haver mais chantagens europeias de última hora, para soluções em que Portugal perde sempre. Em segundo lugar, os acionistas privados têm de pagar pelo buraco que fizeram e os contribuintes têm de ter controlo sobre tudo o que pagam”, propôs Catarina.

A terceira garantia exigida pelo Bloco é que “em todo o processo há controlo público e as regras mudam”. E a quarta é a de que “a Caixa Geral de Depósitos sai fortalecida e integralmente pública”. Por último, Catarina Martins colocou a condição de que o Novo Banco “fica como banco público”.

“Se não for assim, vai acontecer como das outras vezes: entregar à banca internacional os bancos limpos com dinheiro público. As garantias públicas são sempre dinheiro público”, concluiu a porta-voz do Bloco.

António Costa respondeu que partilha da intenção bloquista de que o problema se resolva sem ser à custa dos contribuintes. E das cinco condições colocadas por Catarina Martins, aceita quatro. “Sobre o Novo Banco, não sei se estamos ou não estamos de acordo”, prosseguiu o primeiro-ministro, concluindo que “para início da conversa, não estamos mal”.

“Optarei pela sua solução [sobre o Novo Banco] se essa for a melhor, ou pela proposta do PCP se essa for a melhor. Não optarei nem por uma nem por outra se entender que não são as melhores para defender o interesse público”, afirmou António Costa.

“Banco mau vai servir para vender créditos à empresa de Maria Luís Albuquerque?”

Catarina Martins apontou baterias ao governador do Banco de Portugal, sublinhando que “não queremos outra escorregadela como a do Banif em que o Banco de Portugal fez o que entendeu, o Santander ganhou o que queria ganhar e o seu governo perdeu a maioria parlamentar”.

“Quem nos ouve a falar de um banco mau tem o direito de perguntar se toda esta operação não serve afinal para vender crédito dos bancos a uma empresa como a Arrow Global, de Maria Luís Albuquerque”, prosseguiu a porta-voz do Bloco, considerando “brincadeiras de mau gosto” as garantias dadas por Passos Coelho aos deputados “de que o BES não ia custar um tostão aos contribuintes e o Banif até ia dar lucro”.

“É muito difícil perceber que tenhamos tido tanta dificuldade em debates sobre 3 milhões de euros para o abono de família e depois sermos confrontados com notícias do BdP que quer mais 20 mil milhões de garantias para a banca, depois da banca já ter recebido 12 mil milhões”.

“Quando é que a falha grave serve para substituirmos o governador do Banco de Portugal?”

Catarina Martins referiu-se ainda às notícias que dão conta de que Carlos Costa acelerou o processo de venda do Banif sem informar o governo, com graves prejuízos para os contribuintes, já depois de “ter escolhido os credores a dedo” sem autorização do governo no processo de resolução do BES, “pondo Portugal num processo de litigância em que pode perder milhões.

“De quantas falhas graves precisa o governador do BdP para se reconhecer que está cumprido o critério de falha grave quer obriga à sua destituição?”, questionou.

António Costa respondeu que aguarda “serenamente” pela conclusão da comissão de inquérito e confirmou que “não fomos ouvidos sobre o critério que foi definido pelo BdP quanto aos credores seniores que seriam sacrificados” no caso do BES.

Catarina desafia Costa a apoiar propostas de combate aos offshores

A propósito do escândalo “Panama Papers”, a porta-voz do Bloco insistiu nas propostas que apresentou a seguir à comissão de inquérito ao BES, chumbadas pela direita: o registo obrigatório dos últimos beneficiários “para que os donos do dinheiro não se possam esconder atrás dos offshores” e a proibição de transferências para offshores não cooperantes.

“Estamos de acordo sobre este tema desde que eu era ministro da Justiça”, respondeu António Costa, anunciando a regulamentação das recentes autorizações legislativas para reforçar a fiscalização e do acordo de partilha de informação com outros países para combater evasão fiscal e branqueamento de capital através dos offshores.