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A falácia de os contribuintes nada pagarem

Domingo, Abril 8th, 2018

Citamos

Público Opinião Bagão Félix

Tudo funciona na razão directa da magnitude do buraco no Novo Banco. Quanto maior, mais nós pagamos.

Era uma vez um banco do regime, sempre bajulado e detentor de uma proclamada omnisciência que se dava ao luxo de determinar a distribuição do seu poderio consentido (senão mesmo elogiado), através de formas insidiosas de poder económico-financeiro não escrutinado.

Um dia, esse banco foi dividido (agora diz-se resolvido). De um lado, um chamado banco bom e, do outro, um designado banco mau. Sobre esse dia já muito foi contado. E foi possível imaginar a ponta de um iceberg de relações incestuosas e gananciosas de conglomerados financeiros de múltiplo cardápio de retalho, investimento, onshoreoffshore, fundos, imobiliário, holdings,holdings de holdings, etc. que se auto governavam com o silêncio, a impotência ou omissão das autoridades públicas.

O nome do banco mudou. O banco velho virou Novo Banco. Então, as autoridades logo nos descansaram que o banco bom estava “devidamente capitalizado e expurgado de activos problemáticos” (sic).

A partir daí, começou a saga do contribuinte enganado, sempre com a jura mil vezes repetida pelo anterior e actual governos de que os “contribuintes não seriam chamados a pagar” (sic). Seria, antes, uma entidade colectiva de direito público – o Fundo de Resolução (FdR) – que injectaria no banco (supostamente bom) 4,9 mil milhões de euros, dois quais quase quatro mil milhões emprestados pelo Estado.

Entretanto, o banco foi vendido em 75% a um fundo norte-americano, com uma garantia do FdR até 3,9 mil milhões para ser accionada pelo que ainda houvesse de mau no banco bom. Chamaram-lhe, eufemisticamente, mecanismo de capital contingente.

A isto chamo eu aqui, em versão botânica, uma “figueira” para o fundo comprador. Um negócio tão bem desenhado que deu logo “figos” nos primeiros anos da árvore. É que o banco que era tão bom – privado nos lucros e público nos prejuízos – ainda tinha para lá umas ditas imparidades (outro eufemismo) que se julgava jazerem no banco mau. Coisa de somenos, dois mil milhões. E ainda a procissão vai no adro, pois da garantia nada sobrará e nem um “figo” fica na árvore. E nós, pagadores finais, ainda sem sabermos da factura que será emitida no fim de (e das) contas.

De um modo quase tão verdadeiro como caricatural, o comprador acabará por receber para ficar com o banco que era muito bom e o FdR continuará a pagar para que o comprador com ele fique. Notável!

Com dois detalhes: o FdR é financiado primariamente pelos bancos concorrentes, à frente dos quais está um banco público, a CGD. Como não tem dinheiro para tanta fartura (e factura), nós emprestamos o dinheiro por interpostos governos, que, generosamente, deram um prazo alargado ao FdR (2046) para pagar ao Estado (se até lá, entretanto, não houver um qualquer perdão). Para isso, a concorrência vai durante estes anos todos levar a custo a amortização do dito empréstimo e o Estado vê diminuir a colecta de IRC e dividendos da CGD, quem sabe se substituídos pelos sempre à mão IRS e IVA!

O banco bom (o de 2014) relevou prejuízos em 13 dos 14 trimestres da sua ainda curta vida. Já beneficiou de 8,5 mil milhões de euros: 4,9 mil milhões do FdR, dois mil milhões com a transferência de obrigações seniores para o banco mau (com consequências nefastas para a confiança de investidores institucionais), 800 milhões de outra operação (Goldman Sachs), a que se juntam agora quase 800 milhões do FdR. Por sua vez, o accionista maioritário nada pagou, apenas meteu 1000 milhões no que agora é… seu (dele, não do leitor).

Tudo funciona na razão directa da magnitude do buraco. Quanto maior, mais nós pagamos. Com a particularidade de serem os bancos concorrentes do banco dito bom a terem de pagar as tropelias do antigo e poderoso banco, e até a prática de o Novo Banco se ter dado ao luxo de oferecer taxas de remuneração dos depósitos acima da concorrência, uma “Pouparia” como diz a sua publicidade! Assim se distorce alegremente durante anos e anos a concorrência no mercado. Um absurdo completo!

Qualquer desgraçado que não pague uma prestação de um pequeno empréstimo vê logo penhorados os seus bens. É um caloteiro, sem apelo nem agravo. Ao invés, decisores de créditos obscenos e sem garantias minimamente adequadas continuam a ser grandes profissionais. E os contumazes devedores de créditos megalómanos ou para adquirir posições estratégicas na concorrência andam por aí, contentes e felizes (e muito houve disso na pública CGD…).

Enfim, já entregámos ao sistema bancário desde 2007 mais de 17 mil milhões (9,1% do actual PIB), que equivalem a cada uma das seguintes receitas ou despesas públicas:

  • 3,4 vezes a colecta anual de IRC
  • 1,4 vezes a colecta anual de IRS
  • 2 vezes o orçamento do SNS
  • 24 vezes o Abono de Família pago anualmente
  • Total de investimento público de 2013 a 2018 (seis anos)

A excepcionalidade tornou-se normal. O país anestesiado por fantasias já não se escandaliza. São tudo boas notícias. E há sempre faits divers para o circo mediático.

Querida, encolhi o (novo) banco

Quarta-feira, Novembro 22nd, 2017

O que tu eras e o que tu és… O Novo Banco já é maioritariamente privado, é do fundo Lone Star, e é por isso possível fazer um retrato de dois momentos-chave da instituição. No dia 4 de agosto de 2014, quando houve a resolução do BES e a criação do Novo Banco, e no dia 30 de setembro, data dos últimos resultados conhecidos, ainda como banco de transição.

  • O que era, o que é?

O Novo Banco encolheu, Tem menos 21,8 mil milhões de euros de ativos, mas tem mais depósitos, menos crédito concedido e isso permitiu ter um balanço mais saudável, com um rácio de transformação que passou de 140% para 103%. Tem hoje mais liquidez e menor dependência dos fundos do BCE.

  • E que resultados teve no terceiro trimestre do ano?

O Novo Banco registou prejuízos de 419,2 milhões de euros nos primeiros nove meses do ano. Um desempenho que, segundo o banco, se justifica com a deterioração do resultado operacional e da margem financeira. Estes foram as últimas contas apresentadas enquanto banco de transição, já que foi vendido ao Lone Star.

Supervisão – Tavares ensarilhou o governo

Quarta-feira, Setembro 27th, 2017

Citamos

Ionline

O relatório sobre supervisão apresentado por Carlos Tavares tem três vícios. E basta lê-lo até à página 11 para perceber que só há um caminho possível para a supervisão em Portugal – vertente prudencial para o BdP e comportamental para a CMVM

Vamos lá ver se nos entendemos, o que está a ser discutido não é um texto da responsabilidade do governo, antes um estudo cocho da autoria de três personalidades.

Tenho Carlos Tavares como alguém com méritos vários. Porém, a exterioridade com que desempenhou as funções de presidente da CMVM não consagram curriculum para se transformar no grande “manitu” da supervisão. Mário Centeno teria feito bem se tivesse concedido a Pedro Siza a função de coordenação da comissão, porque sairia do círculo restrito, porque concederia uma leitura mais aprofundada a qualquer resultado, porque alargaria os contributos.

A Comissão Tavares não entendeu o alcance do despacho do ministro das Finanças. Este é bem claro quanto ao mandato que a comissão deve observar e quanto às propostas que deveria fazer – “reorganizar as funções de regulação e supervisão, reforçar a independência dos reguladores e supervisores face aos setores regulados e prevenir abusos do setor financeiro”.

O relatório apresentado por Tavares tem três vícios que, à partida, impõem a sua desconsideração. O primeiro, o da ausência de acompanhamento. Fosse Tavares um homem avisado teria constituído um núcleo de acompanhamento, integrando os atuais reguladores e personalidades de reconhecido mérito que permitissem alargar a visão, questionar a situação e calibrar as propostas. O segundo, o da negação do pensamento académico sobre a matéria. Ninguém pode afastar de um trabalho desta natureza quem estuda, pensa, cria doutrina nestas áreas (a bibliografia indicada é de uma pobreza franciscana). Tavares deve saber que há entidades com vocação, história e prestígio para o cumprimento da missão, sendo o caso mais relevante o do CEDIPRE, presidido por Vital Moreira. O terceiro universo é o do enquadramento legislativo das propostas. Um relatório desta natureza deveria observar o atual património orgânico e avançar com as grandes alterações a fazer para uma outra etapa a concretizar. Nenhum destes pressupostos foi conseguido.

Por outro lado, o relatório confunde as funções de regulação com as funções de supervisão e insere, ainda, as relevantes competências do mais recente universo da “resolução”. Alguém com critério teria apartado as três entidades de regulação atuais e deveria ter ponderado a sua existência, a mais-valia que elas comportam (ou não) para a economia, a sua carga regulamentar e o seu desempenho administrativo. Ora, o relatório é ausente deste universo.

Nas funções de supervisão, apesar de sobre elas consagrar teoria (desatualizada), não vai mais longe do que se poderia esperar perante o quadro vigente. Havendo três entidades com responsabilidades na supervisão, não se descortinando uma linha de rumo sobre os universos prudencial e comportamental, o que a comissão faz é deixar tudo como está, manter o minifúndio institucional que hoje vigora e partir para a criação de mais um ente, uma quarta perna num sistema francamente podre e tecnicamente incompetente.

Quem lê o relatório até à página 11 pode parar aí. Porque verifica, com clareza que só há um caminho possível para a supervisão em Portugal – vertente prudencial para o Banco de Portugal e comportamental para a Comissão de Mercados. Porém, a comissão Tavares mantém o que já hoje existe, porque a Autoridade de Supervisão de Seguros e de Fundos de Pensões tem uma palavra a dizer, e cria um Conselho que servirá de chapéu para o tripé. Nenhum outro país da EU confirma este ente abastardado.

Quem sabe coisas mínimas sobre administração pública rapidamente intui que um “conselho” não suporta atribuições e competências hard de administração. O relatório nada nos diz sobre o conteúdo final da quarta entidade, mas há uma pergunta a fazer – os atuais departamentos de supervisão do BdP, CMVM e ASF vão manter-se? Dependerão diretamente de quem? As orientações do novo Conselho de Supervisão e Estabilidade Financeira são de cumprimento obrigatório e imediato? Quem tem as competências regulamentares e contraordenacionais sequentes a ação de supervisão?

Olhemos agora para a alocação dos poderes de resolução. Esta matéria é revelante na leitura da Diretiva 2014/59/EU e seus desenvolvimentos comitológicos, mas é anacronicamente trabalhada por Tavares. Há, até, no texto uma perversão que não pode deixar de ser assinalada – a da captura do governo perante a decisão de intervir.

Tavares faz uma “chouriça” com dois condimentos incompatíveis, mistura água e azeite, consagra funções que em nenhum outro Estado se agregaram. Supervisão e Resolução têm origens teológicas diferentes, tempos de urgência diferenciados, vocações, sentidos e premências dissemelhantes.

A autoridade de resolução tem formatações diferentes de país para país. Porém, a que mais comum se constata é a da existência de um ente específico agregado ao Banco Central. É assim em França, Itália ou Irlanda. Ora, Tavares em vez de melhorar esta realidade atual, concedendo a segregação de funções ao nível operacional e decisório, optou por passar a “coisa” para esse novo Conselho de Supervisão e Estabilidade Financeira.

Não satisfeito com a criação esdrúxula, a proposta vai mais longe. Ao ministro das Finanças está entregue a responsabilidade de ser o bode expiatório de tudo o que vier a acontecer. No limite, toda a inação, incompetência e compadrio dos reguladores infra seria sempre assumida pelo CSSF e pelo governo. Há aqui dois problemas: 1º o que sempre esteve no funcionamento de reguladores e supervisores – passa culpas; 2º a da parlamentarização da responsabilidade de intervenção e resolução no sistema financeiro. Não vejo, com o atual registo parlamentar e com a maioria que atualmente suporta o governo, qualquer vantagem da proposta apresentada.

Por tudo isto, a proposta da comissão Tavares pode ter dois caminhos: seguir para aprovação pelo governo (faltando conhecer os diplomas que lhe dão corpo e a sua possível e difícil apreciação sucessiva pelo parlamento); ou esperar por 2019 quando houver outro governo, outra composição parlamentar e até outro líder do PSD. Sim, porque nisto tudo há um responsável que nunca se pode esquecer – o governo do PSD/CDS.

 

O Novo Banco, o BCP e os outros

Sexta-feira, Setembro 8th, 2017

Citamos

Observador

O Novo Banco, o BCP e os outros

 

 

 

 

A forma como os bancos se têm encolhido na defesa dos seus interesses no caso BES/Novo Banco é um exemplo da ilusão que é o mercado livre. Mesmo o BCP, o mais atrevido, deu só “um murrinho” na mesa.

A salvação dos depositantes do BES transformou-se num autêntico pesadelo para os bancos do sistema financeiro português que têm accionistas com bolsos pouco fundos. Quem são eles? Basicamente, com risco de perder muito dinheiro, o BCP. Os outros ou têm dimensão para aguentar eventuais perdas, como o BPI/La Caixa e o Santander, ou são do Estado, como a Caixa. Na liga dos mais pequenos o BIG, pela sua solidez, é o que está melhor preparado para eventuais embates. Mas todos eles sabem que a conta do BES, directa ou indirectamente, irá parar aos contribuintes.

No retrato de ganhos e perdas não é de estranhar que o BCP seja o protagonista da guerra, sob a forma de “murrinhos na mesa”, contra as soluções que têm sido encontradas para a resolver a “resolução” do BES. O banco liderado por Nuno Amado passou das criticas aos actos e avançou com um processo administrativo, em que pede para ser avaliada a legalidade das responsabilidades que o Fundo de Resolução assumiu no acordo de venda do Novo Banco ao fundo Lone Star.

Basicamente, o Fundo de Resolução deu ao comprador uma garantia de 3,9 mil milhões de euros, que será accionada caso se registem perdas na venda dos activos que se pretende que fiquem fora do banco (o side bank). Trocado por miúdos, se esse património for vendido por um valor inferior ao que está contabilizado no balanço do Novo Banco, a perda será suportada pelo Fundo de Resolução, ou seja, pelos bancos do sistema.

Com uma garantia daquela dimensão, o BCP expõe-se a uma perda da ordem dos 800 milhões de euros (20% do 3,9 mil milhões de euros) o que, nas contas do banco, corresponde a mais de metade do seu mais recente aumento de capital.

O problema é que todo este caso, passando no crivo da racionalidade de mercado, suscita várias interrogações. A primeira é: porque é que apenas o BCP avançou com este processo? No quadro da Associação Portuguesa de Bancos esteve em discussão a hipótese de as instituições financeiras avançarem em conjunto contra esta parte do acordo de venda. No mundo abstracto essa seria a actuação mais racional: em conjunto oporem-se a pagar também a venda do Novo Banco. Mas não se chegou a consenso.

Porque não houve acordo se praticamente todo os bancos do sistema se opõem ao modelo de venda? Uma das queixas reiteradas dos bancos é que pagam a conta sem terem, sequer, informação sobre o que se está a passar e ainda menos dados para avaliarem como estão avaliados os tais activos que, se forem vendidos com perdas, irão parar às costas dos seus accionistas. A hipótese que ainda lhes resta é participarem no processo de venda desses activos, uma vez que o modelo ainda não está decidido.

Em relação à resolução do BES pode admitir-se que os bancos pagaram o preço da sua estabilidade – a falência do banco liderado por Ricardo Salgado teria custos nos outros bancos que, podemos admitir, seriam superiores às responsabilidades que assumiram. Já relativamente ao acordo de venda é discutível que os concorrentes do Novo Banco tenham alguma coisa a ganhar. Daí que se perceba a sua oposição mais veemente agora.

Mas ninguém teve coragem ou interesse. Compreende-se que os que têm capital espanhol, como o Santander e o BPI/La Caixa, tenham concluído que o que arriscam pagar é muito inferior aos custos que teriam por indispor o Governo e o Banco de Portugal. O La Caixa conseguiu resolver o imbróglio, que tinha no BPI com Isabel dos Santos, graças ao governo de António Costa. E o Santander fez há pouco tempo um acordo com o Governo no caso do processo dos swaps– mantendo os contratos que tinha vivos e emprestando dinheiro ao Estado. Há depois a CGD que como banco público não ia entrar em conflito com o seu accionista. Resta o BCP, com accionistas menos dependentes da boa vontade do Governo e, especialmente, com menos dinheiro ou menos vontade de continuar a meter capital no banco português que mais valor destruiu.

Por aqui se percebe que o mercado livre é afinal um mercado bastante condicionado, em que as trocas intangíveis condicionam as estratégias mais racionais. Que, neste caso, levando estritamente em conta o interesse dos accionistas, seria oporem-se ao acordo de venda do Novo Banco que oferece ao fundo Lone Star garantias de que não corre riscos praticamente nenhuns.

Restou pois o BCP, o único que pareceu ter a coragem de enfrentar o Governo e o Banco de Portugal. O problema está quando olhamos para o que as partes – BCP e Banco de Portugal – dizem ser o efeito desse processo judicial na venda do Novo Banco: nenhum. Ou seja, tudo vai continuar a decorrer normalmente, conforme previsto nos calendários (agora estamos na fase da reestruturação da dívida obrigacionista). Para que serve então a acção administrativa?

Já percebemos que o BCP não quer parar a venda, quer apenas proteger-se de perdas futuras. Mas se está a questionar a legalidade da garantia dada pelo Fundo de Resolução, considerando que o Banco de Portugal está a reabrir um processo de resolução que disse ter encerrado, é difícil, para um leigo, perceber como é que isso não põe em causa a venda. Teoricamente essa cláusula do contrato – a da garantia – seria nula. Mas não é esse o entendimento do BCP e do Banco de Portugal, que também garantiu que o processo de venda se mantém. Mas o entendimento válido é o do tribunal, dir-se-á. Claro que sim mas, quando o tribunal disser o que entende, já a venda do Novo Banco estará concretizada.

Resta a pergunta: para que serve então este processo do BCP? Aparentemente para garantir que será indemnizado se as tais perdas acontecerem e assim criar um incentivo adicional para o Fundo de Resolução vender bem esses tais activos. É pouco para tanto barulho. Basicamente o BCP está a dizer-nos que deu um “murrinho” na mesa, seguindo a estratégia do possível e evitando, também ele, pôr em causa o generoso acordo de venda do Novo Banco ao Lone Star.

Resumindo e concluindo, todos já percebemos onde vai parar o custo de salvar os depositantes do BES: aos contribuintes. Como sempre se preconizou desde o dia de Agosto de 2014 quando se aplicou a resolução. Que nasceu torta e está com dificuldade em endireitar-se.

Há uma outra conclusão que já podemos tirar de todo este processo: o modelo de resolução seguido no BES está morto e enterrado. Ficou-se por Portugal e ameaçou ser uma “bomba atómica”, como logo na altura preconizaram os banqueiros, entre eles o presidente do BIG Carlos Rodrigues numa entrevista ao Expresso.

Basicamente, não se salvam grandes bancos transferindo o custo da sua salvação para os concorrentes. Porque se corre o risco de criar um problema em todos os bancos do sistema. Os únicos que conseguem pagar os grandes bancos são, infelizmente para nós, os contribuintes. Todos os bancos sabem isso. Daí que se possa dizer que, quer pelos favores que vão tendo dos governos, quer porque sabem que estarão salvos da conta do BES, ficam quietinhos a ver o Novo Banco a ser entregue ao Lone Star. Não precisam de fazer nada porque sabem que a prazo a conta irá parar ao bolso de quem paga o seus impostos, com muito ilusionismo e opacidade.

É por isso que o acto de coragem do BCP pode ser afinal uma táctica política para mostrar aos analistas e aos accionistas. Mas que mesmo assim merece ser elogiada. Porque era isso que todos deviam ter feito, em nome da concorrência, em nome de relações transparentes e de mercado com os governantes e supervisores. Em vez de aceitarem o caminho do “vai-se resolvendo”, sem que o cidadão comum dê conta que afinal pagou tudo.

O fardo sem fim da resolução

Terça-feira, Julho 25th, 2017

Citamos

Negócios

Estão quase a cumprir-se três anos desde o colapso do BES e da resolução que criou o Novo Banco. As datas certas são alturas propícias a balanços. Ricardo Salgado não quis deixar de fazer, de antemão, o seu, em legítima defesa, preparando a sua defesa em tribunal. Mesmo que se discorde, mesmo que indigne, há sempre utilidade em ouvir a outra versão da história.
A narrativa é a do costume. Na entrevista ao Dinheiro Vivo, Ricardo Salgado repete que a queda do BES e os lesados são responsabilidade de Carlos Costa e Passos Coelho; o que correu mal, como a dívida escondida do GES, não era do seu conhecimento ou estava fora do seu controle. Só assume que falhou na escolha de Álvaro Sobrinho e Helder Batáglia – cometeu “erros de julgamento, não de princípio”. Acredita quem quer.

Há depois a efabulação, de que se o tivessem deixado a ele, Ricardo Salgado, completar o seu plano, tudo teria corrido bem. Haveria aumentos de capital com dinheiro privado, o BES subsistiria e não haveria lesados do papel comercial. Quando se olha para o Fundo de Resolução e para os quase 10 mil milhões em responsabilidades efectivas e contingentes à conta do colapso do banco, a que acresce todo o dinheiro que se queimou em provisões, é difícil acreditar que tal plano tivesse qualquer chance de ser bem sucedido.

Foi Ricardo Salgado que colocou o banco na vulnerabilidade de ser resolvido. Não aconteceu, nesta crise, com mais nenhum grande banco do sistema português. Ser arguido simultaneamente no Monte Branco, Operação Marquês e Universo Espírito Santo não o condena, mas serve como julgamento ético.

Numa coisa Ricardo Salgado tem razão: ao contrário do que defende Carlos Costa, a resolução está longe se ser um processo exemplar. A venda do Novo Banco é um fiasco. O fardo de 10 milhões de euros que deixou – quando somadas as responsabilidades assumidas pelo Fundo de Resolução na venda do Novo Banco à Lone Star-, penalizam diariamente o sistema financeiro e continuarão a pesar durante longos anos. Seja nos resultados, no “rating” ou na avaliação dos investidores. E acabam por chegar aos clientes na forma de comissões e juros mais elevados.

E a carga ainda poderá crescer. É que se existirem indemnizações a pagar por causa dos processos que decorrem em tribunal, é ao Fundo de Resolução que a conta será endereçada. Na entrevista ao Negócios e à Antena 1, o presidente da APB veio já marcar posição: os bancos “não podem aceitar” mais encargos. O machado da litigância levará tempo a enterrar nos tribunais nacionais, mas a ameaça de guerra está feita.

A resolução é tudo menos um processo limpo, escorreito ou indolor. Três anos depois, o BES ainda é material tóxico e ainda o será por muito tempo. No fim a factura chega sempre: se não pagamos como contribuintes, pagamos como consumidores. Ou das duas maneiras.

O “carro-vassoura” da banca ibérica

Quinta-feira, Junho 8th, 2017

Citamos

Negócios Opinião Tiago Freire

O Popular caiu e o Santander engordou. A resolução do primeiro vem, para já, toda certinha e direitinha, ao contrário da fumarada que rodeou e continua a rodear as intervenções na banca portuguesa.

Este caso merece ser analisado e acompanhado com atenção. Já tivemos alguns “case studies” de como não fazer as coisas (Olá, BES); talvez tenha chegado o tempo de termos um que efectivamente funcione como é suposto.

Há vários grandes méritos da operação. O primeiro é a ausência de apoio público no resgate a um banco, um banco ibérico com dimensão considerável. Outro é a entrega do Popular a uma instituição sólida, credível e com “track record”, e não a um fundo que hoje compra um banco e amanhã vai aos saldos de outra coisa qualquer. Outro ainda, fundamental, é a protecção dos depositantes, de todos eles.

Como em tudo, há outro lado, naturalmente. Há muitos milhares de accionistas do Popular (eram mais de 300 mil no final de Março) que viram o seu investimento arder, bem como os detentores de obrigações menos garantidas. A estes servirá de pouco consolo lembrarem as palavras das autoridades espanholas, que foram garantindo nas últimas semanas que o Banco Popular estava sólido e iria recuperar. Como vimos nos bancos portugueses que foram ao charco, o discurso lembra sempre o do célebre cavaleiro negro dos Monty Python, que se esvaía em sangue enquanto assegurava, cheio de bazófia, que não sofrera mais do que ferimentos superficiais. Não era assim, afinal. Vingou, mais uma vez, o princípio de que os depositantes merecem toda a protecção; os investidores, nenhuma. Um conceito excessivo, injusto, e que dificulta naturalmente a atracção de investimento para qualquer banco afectado por uma sombra de fragilidade, exactamente aqueles que mais precisariam de reforço de capitais privados.

Com esta solução, o Santander dá mais um salto. Ganha escala em Espanha e em Portugal. Tem espaço para sinergias, que provavelmente levarão, como sempre, a mais destruição de emprego no sector bancário. É inevitável, em nome da eficiência e do racional financeiro da operação.

Para os portugueses, a solução é boa. As operações bancárias não sofreram qualquer quebra e o Totta é um banco eficiente, estável e com provas dadas no seu compromisso local.

Com o explícito beneplácito das autoridades europeias, o Santander é cada vez mais o “carro-vassoura” da banca ibérica, recolhendo os mais débeis e seguindo em frente. Entre as várias soluções, todas elas com destruição de valor, esta é uma boa via.

Vender depressa não é vender bem

Terça-feira, Maio 30th, 2017

Citamos

Observador Opinião Rui Rio

Vender depressa não é vender bem

 

No caso do Novo Banco só parece haver uma posição ética e moralmente aceitável: anular esta espécie de concurso e abrir um novo, onde a concorrência e a igualdade de oportunidades sejam salvaguardadas

Há dois meses, dei nota pública da minha revolta pela forma como se resolveu o Banif. Uma humilhação que Portugal pagou, curvado, não só perante a arrogância, como principalmente perante uma insuportável hipocrisia de Bruxelas — que, em nome da propalada concorrência, não permitiu que o Banif fosse capitalizado com dinheiro do Estado português, nem integrado na CGD … mas que, em paralelo, obrigou a que este fosse devidamente acolchoado em dinheiro público para, depois, ser entregue a um dos gigantes do mercado bancário europeu.

O que se passou com o Banif é, aliás, um excelente indicador para se perceber os caminhos que a UE tem vindo a trilhar e o quanto eles podem fazer perigar a sua própria sustentabilidade futura.

Sempre julguei que este triste exemplo, tivesse despertado em todos nós a necessidade de passarmos a defender o interesse nacional com outra garra e outra firmeza. Compreendi a dificuldade do atual Governo ter, na altura, conseguido fazer de forma diferente, uma vez que o caso lhe desabou em cima, logo no momento em que tinha acabado de tomar posse. Mas, no que concerne ao Novo Banco, a situação já é bem diferente e o Governo não pode fugir a nenhuma responsabilidade.

As regras para a venda do Novo Banco determinavam que o comprador deveria adquirir 100% do capital, não podendo também solicitar quaisquer garantias ao Estado português. Dentro destas condições, o Banco de Portugal (BdP), através do Fundo de Resolução, acordou com os dois candidatos finais, o grupo Apollo e o Lone Star, que o prazo para a obtenção de dados terminava a 24 de fevereiro de 2017. Estranhamente, a 17 de fevereiro, o BdP, com a concordância do Governo, interrompeu este processo e passou a negociar apenas com o Lone Star.

Esta decisão de dificílima compreensão, fragilizou de forma evidente o interesse público, sendo certo, que o que se lhe seguiu ainda se revelou bem pior.

Primeiro, porque em vez de negociar em paralelo com os dois candidatos, maximizando o valor de venda, o BdP passou a dialogar apenas com um candidato, o que o colocou numa posição de inferioridade.

Em segundo, porque o vendedor aceitou, subitamente, oferecer 3,9 mil milhões de euros em garantias ao Lone Star sobre possíveis imparidades adicionais existentes no Novo Banco (ou seja, no BES bom, lembram-se?…), quando o discurso do próprio Governo foi sempre bem claro dizendo que tal não seria concedido e o candidato Apollo também não o havia solicitado.

Em terceiro, porque, ao arrepio do que tinha sido inscrito nas regras de alienação, o Estado por via do Fundo de Resolução vai ficar com 25% do capital, aceitando a humilhação de esses 25% não terem direito a voto, nem sequer direito a representantes na administração.

Em quarto, porque não se estabeleceu o “princípio de preferência múltipla”, que daria aos 25% detidos pelo Estado, o direito de preferência quando o Lone Star vender os seus 75%, se considerar que o futuro accionista não é desejável para o sistema bancário português, ou porque o preço de venda é demasiadamente baixo.

Em quinto, porque não se procura dar a possibilidade de essa participação no capital poder vir a ser adquirida por investidores portugueses, quando o Apollo já tinha anunciado que iria trazer consigo um parceiro nacional.

Em sexto, porque ao alterar completamente as regras de jogo não permitiu que outros potenciais concorrentes o pudessem ser, já que agora teriam direito a receber este novo bónus de 3,9 mil milhões de euros.

Perante tudo isto, só parece haver uma posição ética e moralmente aceitável: anular esta espécie de concurso com regras em constante mutação e abrir um novo, em que a concorrência e a igualdade de oportunidades sejam devidamente salvaguardadas; ou, no mínimo, dar um prazo para que outros potenciais interessados se possam candidatar nas condições presentemente oferecidas.

É mais do que justo e eticamente imperioso, que, por exemplo, os bancos que operam em Portugal, designadamente os que ainda têm algum capital português, possam também apresentar uma proposta. Até porque, são eles que, ao contribuírem obrigatoriamente para o Fundo de Resolução, vão ter de, a longo prazo, pagar esta nova garantia de quase 4 mil milhões de euros que o governo e o BdP estão agora a oferecer ao candidato único que pretendem escolher.

É por demais evidente que seguir este caminho só poderia ter um efeito positivo nas nossas finanças públicas e no nosso sistema bancário. E, se assim é, se qualquer pessoa de bom senso o entende, porque razão o Governo e o Banco de Portugal não o fazem? Que razões haverá para que não se proceda da forma mais equilibrada e mais transparente? Qual a lógica para não se querer dar oportunidade a uma proposta melhor?

Em face da dimensão do que estamos a falar, da brutalidade com que o sistema bancário tem penalizado os portugueses e, fundamentalmente, em nome da transparência democrática, o Governo só pode tomar uma de duas atitudes: ou dá oportunidade a outros potenciais concorrentes, ou explica transparentemente porque não o faz.

Porque, acima de tudo, uma palavra se impõe que seja dita perante tudo o que os portugueses têm sido obrigados a suportar no sistema financeiro: BASTA!

Economista, partner da Boyden

A tal borla aos bancos

Terça-feira, Abril 11th, 2017

Citamos

Expresso Opinião João Galamba

Era uma vez um fundo que Maria Luís Albuquerque jurava ser dos bancos. Esse fundo, chamado Fundo de Resolução, era uma entidade pública, estava no perímetro das administrações públicas, mas isso é apenas estatístico, garantiu vezes sem conta Maria Luís Albuquerque, porque as contribuições para o fundo seriam integral e exclusivamente pagas pelos bancos, não pelos contribuintes. O empréstimo que o Estado teve de conceder ao Fundo tem um prazo curto e será inteiramente suportado pelo fundo, isto é, pelos bancos. O enorme detalhe que Maria Luís Albuquerque nunca explicou foi como é que era suposto contribuições inferiores a 200 milhões de euros por ano, que pagavam pouco mais do que os juros devidos ao Estado, reembolsarem uma dívida superior a 4 mil milhões até agosto de 2016.

Ao contrário do que a mitologia da Imaculada Resolução sustentava, o Novo Banco não foi vendido por um valor que permitisse amortizar a dívida do fundo de resolução. Não havendo qualquer amortização da dívida que decorra do processo de venda do Novo Banco, a única receita anual do fundo que poderia reeembolsar o Estado seria a contribuição anual dos bancos. Como é evidente, os bancos, com a Caixa Geral de Depósitos à cabeça, não tinham capacidade de pagar 4 mil milhões de euros sem incumprir os seus rácios de capital regulatório. No caso da Caixa estamos a falar de mais de mil milhões de euros.

Para se perceber o que podem ou não os bancos pagar, recuemos ao debate e votação do Orçamento do Estado para 2016, quando o governo propôs aumentar a contribuição sobre o sector bancário. Este agravamento permitia que as contribuições anuais para o fundo aumentassem cerca de 50 milhões de euros anuais. PS, BE, PCP e PEV votaram a favor; o PSD votou contra.

É o mesmo PSD que votou contra o aumento das contribuições da banca que vem hoje falar de alegadas borlas dadas aos bancos no empréstimo concedido pelo Estado. Como o reembolso do empréstimo depende exclusivamente das contribuições dos bancos, o PSD acaba por defender uma coisa e o seu contrário: defende que os bancos paguem menos e mais; potencialmente muito mais, não sabemos, até porque o PSD não explica.

Como é fácil de entender, a estrutura do empréstimo (prazo, juros) tem de ser adaptado à realidade das contribuições feitas pelos bancos. Só assim, depois de ajustado o empréstimo à realidade, é podemos dizer que a dívida será efectivamente paga pelos bancos, através das ditas contribuições, as únicas existentes para tal efeito. Até 2046, é certo; com um juro baixo, é verdade. Mas, nesses novos termos, serão mesmo as contribuições anuais dos bancos, e só estas, a pagar a dívida do fundo ao Estado. So depois do actual governo ter feito o que fez é que aquilo que o anterior governo afirmava sobre a responsabilidade dos bancos em relação ao fundo passou a ser verdade: são os bancos que pagam a dívida do fundo.

Podemos debater se o juro ou o prazo devia ser este ou aquele, mas todos esses debates seriam sempre, afinal, sobre o mesmo e único tema relevante: qual deve ser o valor da contribuição anual dos bancos para o fundo de resolução? Em 2016, contra a vontade do PSD, que votou contra, aumentou 50 milhões de euros. Se queremos um empréstimo mais rentável para o Estado, então temos de saber se isso é sustentável para o sector financeiro, porque implicaria um novo aumento das contribuições do sector bancário para o fundo de resolução. É um debate que podemos ter, mas, como se tem visto, não me parece que o PSD tenha qualquer intenção de participar nele de forma séria.

Os novos “donos disto tudo” estão a prazo

Segunda-feira, Abril 10th, 2017

Citamos

Negócios opinião Bruno Faria Lopes

O Novo Banco é o maior símbolo da mudança na estrutura de poderes da economia portuguesa – o banco nasceu, afinal, das cinzas daquele que era o maior centro de poder económico privado em Portugal, o império Espírito Santo.

O Novo Banco é o maior símbolo da mudança na estrutura de poderes da economia portuguesa – o banco nasceu, afinal, das cinzas daquele que era o maior centro de poder económico privado em Portugal, o império Espírito Santo. A sua provável venda a um fundo abutre norte-americano é, também, um símbolo de uma nova mudança no futuro: a maioria dos novos “donos dito tudo” – na banca, nos seguros ou nas telecomunicações – pode estar a prazo em Portugal.

No caso do Lone Star – vamos assumir que o negócio vai ser feito – a venda futura do Novo Banco é mesmo uma certeza. É assim que um fundo desta natureza funciona. O acordo de venda prevê um mínimo de três anos à frente do banco e no Lone Star fala-se para fora, em termos muito genéricos, em cerca de seis anos – o tempo que estimam precisar para maximizarem o retorno do investimento.

No restante sector financeiro não há vendas tão certas como esta, mas não corremos um risco demasiado alto se dissermos que são prováveis. A Apollo – que dos despojos da era Espírito Santo ficou com a seguradora Tranquilidade e ao Banif foi buscar a Açoreana -, não é muito diferente do rival Lone Star. No BCP, o novo accionista de referência é um conglomerado chinês que tem crescido meteoricamente, mas que não tem conseguido tirar lucros operacionais dos negócios que acumula – a Fosun, com a sua enorme dívida e dependência da opaca política de Pequim, é candidata a encontrar turbulência mais à frente. Nesse contexto, a sua permanência no BCP e na Fidelidade – seguradora que comprou à Caixa e que logo a seguir pôs a financiar o conglomerado – não estará garantida.

Nas telecomunicações, a dona da PT levanta sobrancelhas no mercado à conta do seu endividamento: para financiar a ambiciosa e rápida expansão global, a Altice fez disparar a sua dívida de 1,7 mil milhões de euros em 2012 para cerca de 48 mil milhões no final do ano passado. Em 2015, o agora candidato presidencial Emmanuel Macron, então ministro francês da Economia, afirmou que o fundador da empresa estava a dar um passo maior do que a perna. Um aperto futuro nas condições de financiamento da dívida fará a Altice passar um mau bocado e será, como no caso da Fosun, um teste ao grau de compromisso que tem com os seus investimentos.

Estes compradores estrangeiros foram quem apareceu num cenário crise, quando o Estado sob resgate se viu forçado a vender os anéis que ainda tinha e o Grupo Espírito Santo sucumbiu. Foi assim que EDP, REN, ANA, PT, Novo Banco ou BCP, para dar exemplos mais sonantes, passaram para controlo estrangeiro (uma lista a que se juntam muitas outras empresas). A entrada destes investidores foi importante para encaixar receita pública e para assegurar a vida dos negócios em que entraram (e da maioria dos empregos).

Mas em vários casos – porque são conglomerados ou grupos sobreendividados, porque a sua viabilidade depende da política opaca do seu país de origem, porque são investidores estritamente financeiros – estes compradores não ideais parecem configurar uma fase transitória. Por outras palavras: as mudanças nestes sectores estratégicos para a economia portuguesa estão longe de ter chegado ao fim. Resta saber quem, em Portugal ou lá fora, estará em posição de agarrar o ceptro quando os “novos donos disto tudo” quiserem entregá-lo.

 

Novo Banco: Ainda bem que se fez este péssimo negócio

Segunda-feira, Abril 3rd, 2017

Citamos

Eco

Novo Banco: Ainda bem que se fez este péssimo negócio

 

 

O acordo de cedência do Novo Banco ao Lone Star é um péssimo negócio. É o possível, não há melhor, e poderia ser pior. Só falta que o expliquem de forma verdadeira e para que toda a gente o entenda.

A venda (?) do Novo Banco ao fundo Lone Star tem o mérito de resolver mais um problema do sistema financeiro português, mas os termos deste acordo – ainda condicionado à imposição de novas perdas a obrigacionistas seniores… outra vez – têm outro virtude: põem fim a um conjunto de mitos sobre a resolução do BES, a qualidade do balanço do Novo Banco, a ausência de garantias do Estado, as alternativas a uma venda e a força do governo, deste ou de outro, perante as instâncias europeias. Vamos falar em português corrente, para que todos possam entender um negócio em que o Lone Star fica com 75% do capital e injeta mil milhões no Novo Banco, o Estado com 25% através do Fundo de Resolução e, depois, presta uma garantia pública no valor de 3,9 mil milhões de euros para cobrir os riscos de créditos problemáticos.

Comecemos pela resolução do BES no dia 3 de agosto de 2014. A resolução foi uma experiência europeia imposta a Portugal, pela primeira vez num banco de caráter sistémico na zona euro. E o governo de Passos Coelho, porque tinha sido o campeão da saída limpa, alinhou na festa. Deixou o governador do Banco de Portugal à frente do carro, a conduzir sozinho, e depois daqueles prejuízos gigantescos – de 3,5 mil milhões – o BES estava à beira do precipício e deu um passo em frente. Resolvido num fim de semana, pré-anunciado por Marques Mendes, do BES, nasceu um Novo Banco e ficou um ‘BES mau’ para trás. Hoje, sabe-se, ‘para trás’ é uma força de expressão. Desde a sua criação e até setembro de 2016, últimos dados disponíveis, o Novo Banco acumulou prejuízos de 1.800 milhões de euros.

Depois, nesse fim de semana, foi decidido capitalizar o Novo Banco com 4,9 mil milhões de euros. Supunha-se, o capital suficiente para permitir uma nova vida ao Novo Banco. Mentira. Deveriam explicar-nos, hoje, o que justificou aquele balanço, aquela avaliação de ativos e passivos. Quase três anos depois, já se arranjaram várias soluções para ‘meter’ dinheiro no Novo Banco. Os lesados do Grupo Espírito Santo (GES) perderam a ‘almofada financeira’ que lhes tinha sido prometida, os obrigacionistas seniores perderam mais de dois mil milhões de euros e o Novo Banco foi fazendo, neste período, a venda de ativos problemáticos que ajudaram a ‘limpar’ um balanço de um Novo Banco com créditos velhos e de difícil cobrança. Sempre a somar.

Já tinha havido uma primeira tentativa de venda do Novo Banco. Falhou, e verdadeiramente não se sabem as razões. Mas uma coisa ficou clara, o Banco de Portugal não estava nem está talhado para vender bancos, coisa que lhe está cometida por ser (ainda) a entidade de resolução bancária em Portugal. Deve concentrar-se na supervisão, e como se percebe pelos sucessivos problemas de bancos em Portugal, não é coisa pouca, nem coisa fácil. Foi isso, aliás, que levou Carlos Costa a contratar Sérgio Monteiro para coordenar o segundo processo de venda do Novo Banco. Foi a melhor decisão.

Passados quase 15 meses sobre a abertura de um novo concurso, ficou um candidato firme à compra do Novo Banco. E não foi nenhum banco do sistema, nem sequer uma instituição financeira de outro país. Foi um fundo de private equity norte-americano especializado na gestão de ativos imobiliários. Este é o primeiro ponto relevante desta negociação e dá a ideia das condições desfavoráveis desta negociação. Do ponto de partida. Mostra, também, que o Novo Banco não era propriamente um tesouro, nem sequer escondido, mas um banco a tentar fazer pela vida, em circunstâncias muito difíceis, com um passado recente traumático, e não apenas financeiro.

O acordo com o Lone Star é um péssimo negócio para o Estado. Mas não há melhor, e poderia ser pior. As alternativas também. Não é péssimo para todos, é bom para o Lone Star, mas por alguma razão o fundo ficou sozinho. Só quem estava iludido, pode estar desiludido. O que está implícito nos termos deste acordo é uma resolução do Novo Banco, uma nova divisão entre banco bom e banco mau, embora debaixo da mesma marca. Para falar em bom português, com este negócio, o governo deu a parte boa do Novo Banco ao Lone Star, contra uma capitalização de mil milhões de euros, e pôs o Estado, através do Fundo de Resolução, a assumir o risco financeiro e de gestão dos créditos problemáticos que o Novo Banco ainda tem. E são muitos.

Deu uma garantia de 3,9 mil milhões de euros – chamemos as coisas pelo seu nome próprio, mesmo com nome de família diferente – e vai ganhar tempo na gestão destes créditos, com a secreta esperança de que se recupere o valor desses empréstimos de forma a limitar as perdas desta garantia, que tem o nome pomposo de ‘mecanismo de capital contingente’. A diferença tem também a ver com a forma como esta garantia vai impactar as contas públicas. Ao longo do tempo, em função da sua utilização, e não já em 2017, quando é constituída.

Há alguma defesa do Estado? Há, e reforçada face às garantias clássicas. Os créditos que estão protegidos são decididos pelo Fundo de Resolução, que pode ceder a sua gestão a terceiros. Por outro lado, a utilização desta garantia, criativa e engenhosa – mérito de Sérgio Monteiro – tem um conjunto de regras que limita os riscos. Por exemplo, só pode ser usada se os rácios de capital do Novo Banco baixarem de um determinado nível e não em função de um crédito isolado. . O novo dono está proibido de distribuir dividendos durante oito anos, os mesmos da validade deste garantia, o mecanismo de capital contigente. Ou seja, os incentivos, do Estado e do Lone Star, estão alinhados no mesmo sentido. Dito isto, só existe porque existe risco e acreditar que o Estado se livrará deste contingente sem custos é uma ingenuidade. Ou outra coisa.

Sim, a garantia é do Estado através do Fundo de Resolução, que é financiado pelos bancos do sistema, mas como este fundo não tem dinheiro, serão os contribuintes a assumir o primeiro risco, o de emprestarem o dinheiro necessário para fazer face às perdas que aí vêm. O Estado, todos nós, vai endividar-se para o fazer, e vai fazê-lo agora, mas se os créditos se perderam ao ponto de ser necessária a utilização dos 3,9 mil milhões de euros, cenário mais do que possível, os bancos vão começar a devolver este empréstimo a partir de… 2046. Sim, leu bem, com um período de carência de 30 anos. Até lá, estão a pagar cerca de 200 milhões por ano do empréstimo anterior. A perpetuidade é o limite. É o equilíbrio possível para não não rebentar com os bancos e os respetivos acionistas.

É por estas razões, e por outras, que o primeiro-ministro deveria poupar-nos a afirmações que fez no anúncio do acordo. “Não há garantia, nem direta nem indireta”, diz Costa. Quer mesmo manter a afirmação!? É justo reconhecer-lhe, a ele e a Mário Centeno, a perseverança nos processos do sistema financeiro, com trambolhões aqui e ali pelo meio, nas negociações com Bruxelas. Mas também se exige respeito pelos contribuintes e pelos eleitores. A política não justifica tudo. Há dois anos, o uso do Fundo de Resolução tinha custos para os contribuintes, agora já não há riscos nenhuns. Pedro Passos Coelho e Assunção Cristas cometem o mesmo pecado. A diferença? Mudaram de lado. (Mais) coerentes neste ponto são o BE e o PCP. Mas, também estes, falam muito, para os seus eleitores, mas não vão fazer nada. O poder é o que é… e é melhor tê-lo, não é?

E alternativas, há? Há, mas são… inviáveis. Se os termos deste negócio são o que são, a nacionalização seria assumir estes riscos já à cabeça – o primeiro-ministro falou em 4,7 mil milhões de euros – e arriscar outros, pesados, no futuro. Alguém pode dizer que a fatura ficaria fechada aqui? Não nos esquecemos do que ainda há a pagar do BPN, um banco que tinha uma quota reduzida no mercado, incomparável com a posição do Novo Banco, que, nas empresas, domina cerca de 20% do mercado. E a CGD, que ainda agora recebeu mais 2,5 mil milhões em capital público.

Além disso, há outro ‘pormaior’: quem disse que a Comissão Europeia, e as Direção-Geral da Concorrência (DGComp) aceitaria tal decisão? Se impôs tantos entraves e limitações à posição de 25% no capital, isto é, sem votos e sem administradores, o que leva a considerar que aceitaria a nacionalização? Nada.

Se ninguém quer falar da liquidação, com data marcada a 3 de agosto, regra geral porque o país ainda não está preparado para isso e, com toda a certeza, seria feita à pressa, como sucedeu com a resolução do Banif, há quem defenda dois outros caminhos:

  1. O governo deveria ter vendido 100% e não deveria ter assumidos riscos e garantias;
  2. O governo deveria ter negociado um alargamento do prazo de venda do Novo Banco.

Quer uma, quer outra solução partem de pressupostos errados. Mas se só houve um candidato e com tantas garantias dadas, seria possível encontrar compradores sem o Estado assumir riscos e a parte má do Novo Banco? Não. E, quanto ao tempo, a história mostra-nos que o Novo Banco perderia valor se estivesse mais tempo numa situação de indefinição, os problemas que já tem agravar-se-iam, os que não tem apareceriam por falta de capital.

O governo de Costa fechou este negócio, Passos Coelho e Assunção Cristas não teriam feito melhor. Poderiam vender o negócio de outra forma, poderiam ter feito uma ou outra opção diferentes, mas no que é essencial, a última decisão não é portuguesa, é de Bruxelas. Foi o que se viu nos poderes conferidos ao Fundo de Resolução decorrentes da participação de 25%. Também seriam obrigados a dar garantias públicas através do Fundo de Resolução, porque, no essencial, o Novo Banco tem duas caras, a de uma equipa comercial junto das empresas do melhor que os bancos têm, uma carteira de empréstimos e de participações que são uma fonte de perdas, presentes e futuras. Parecem características contraditórias, não são.

O governo foi a jogo, já tinha ido com a CGD, foi outra vez com o Novo Banco. Cometeu erros, passou linhas que nos recordaram outro tipo de intervenções passadas com tão maus resultados, assumiu os resultados. Pedro Passos Coelho perdeu por falta de comparência no sistema financeiro. Não entrou sequer em campo, apostou tudo na saída limpa e no esforço, esse feito, nas contas públicas, deixou a banca para outras rondas, convencido de que o sistema teria capacidade para se regenerar à medida da economia. Não teve.

O que falta fazer para o acordo passar a negócio? Impor perdas a obrigacionistas que, de uma maneira ou de outra, resultem em 500 milhões de euros no rácio ‘common equity tier 1’. Uma troca de dívida que o Banco de Portugal e a gestão do Novo Banco puseram em cima da mesa, o Lone Star agradeceu e o BCE elogiou. Por redução dos prazos e dos juros, ou de ambos. É um modelo voluntário, ao contrário do que sucedeu no final de 2015. Os investidores, alguns, não vão gostar, vão desconfiar, e só não vão fugir se não puderem. Provavelmente, não vão ter alternativa, porque a alternativa é a liquidação. E aí, vão perder muito mais. Esta operação, aliás, tem de estar fechada para que o negócio com o Lone Star avance.

Finalmente, vamos saber com detalhe o que o Lone Star quer fazer do Novo Banco. O plano de reestruturação imposto por Bruxelas tem de passar para o business plan do Novo Banco, exatamente como aconteceu com a CGD. Para já há uma aprovação informal, a formal vai depender do plano que vier a ser feito. E, aqui, a exigência de Bruxelas e a agressividade do Lone Star vão no mesmo sentido. Uma reestruturação rápida e profunda.

Tudo somado, ainda bem que se fez este péssimo negócio. Amanhã, provavelmente, seria pior.