Arquivo para a categoria ‘Ricardo Salgado’

Banco de Portugal aplica nova coima a Salgado no valor de 4 milhões no caso Eurofin

Sexta-feira, Setembro 18th, 2020

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Banco de Portugal aplica nova coima a Salgado no valor de 4 milhões no caso Eurofin

Ricardo Salgado foi alvo de nova coima no valor de 4 milhões de euros no processo da Eurofin e às operações que lesaram o BES. Amílcar Morais Pires e José Manuel Espírito Santo também foram visados.

O Banco de Portugal voltou a condenar Ricardo Salgado e outros ex-gestores, desta vez no processo ligado à Eurofin e às operações que lesaram o BES. O ex-presidente do banco foi alvo de uma coima de 4 milhões de euros.

A condenação de Salgado é explicada pelo supervisor, segundo o Expresso (acesso livre), por, entre outros, a “prática de atos de gestão ruinosa praticados em detrimento de depositantes, investidores e demais credores”, violação das regras de prevenção de conflitos de interesse e ainda desobediência a determinações do supervisor.

Além do ex-banqueiro, há mais duas condenações no âmbito do processo Eurofin, numa decisão tomada pelo conselho de administração do Banco de Portugal a 8 de setembro de 2020. O supervisor aplicou uma coima de 3,5 milhões ao ex-administrador financeiro do banco Amílcar Morais Pires e outra coima de 1,25 milhões a José Manuel Espírito Santo.

 

Tribunal da Relação anula despacho de Ivo Rosa e obriga-o a analisar declarações de Hélder Bataglia

Sexta-feira, Setembro 11th, 2020

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Tribunal da Relação anula despacho de Ivo Rosa e obriga-o a analisar declarações de Hélder Bataglia

Juiz de instrução da Operação Marquês obrigado a analisar prova testemunhal de ex-líder da Escom sobre transferências relacionadas com José Sócrates, o seu primo e Ricardo Salgado.

O Tribunal da Relação de Lisboa deu razão ao Ministério Público e anulou uma vez mais um despacho de Ivo Rosa, censurando-o por “extravasar as suas competências”, por esquecer o que determina a jurisprudência e por confundir “conceitos jurídicos” básicos. Desta vez foi na Operação Marquês e no centro do acórdão assinado pelos desembargadores Ricardo Cardoso e Artur Vargues estão declarações relevantes de Hélder Bataglia, ex-líder da Escom, que o juiz que lidera a fase de instrução criminal da Operação Marquês terá agora de ter em conta na sua decisão instrutória, que deverá ser conhecida até ao final deste ano. É a 14.ª derrota para Ivo Rosa na Relação de Lisboa em menos de três anos.

As declarações de Bataglia foram proferidas no processo Monte Branco e dizem respeito ao esquema de branqueamento de capitais de Francisco Canas (o principal suspeito daquele processo, que morreu em janeiro de 2017) que alegadamente permitiu a transferência de cerca de dois milhões de euros para contas bancárias na Suíça controladas por Carlos Santos Silva (alegado testa-de-ferro do ex-primeiro-ministro José Sócrates) e por Armando Vara (ex-administrador da Caixa Geral de Depósitos). Tais transferências são, segundo a acusação do Ministério Público, uma alegada contrapartida paga a José Sócrates e Armando Vara pela aprovação um crédito de mais de 197 milhões de euros na Caixa Geral de Depósitos para um grupo de investidores liderados por Bataglia comprarem o resort algarvio Vale do Lobo. Bataglia fez igualmente declarações sobre transferências para o primo de José Sócrates e para Ricardo Salgado através das suas sociedades offshore Green Emerald e Overview Investments.

Decisão “revela confusão de conceitos jurídicos” e “extravassa competências”

Ivo Rosa tinha decidido a 21 de junho de 2019 anular a prova testemunhal de Hélder Bataglia, argumentando que a lei apenas permite que as declarações prestadas num determinado processo sejam utilizadas como prova nos mesmos autos em que foram proferidas. Como as declarações de Bataglia tinham sido feitas no âmbito do caso Monte Branco, então não podiam ser transferidas para a Operação Marquês para “formar qualquer juízo de indiciação” na fase de instrução.

O procurador Rosário Teixeira recorreu para a Relação de Lisboa argumentando que o juiz Ivo Rosa estava a extrapolar e a invocar para a fase de instrução criminal uma norma que apenas é usada durante a fase de julgamento. “A valoração de determinado meio de prova em fase de julgamento é questão diversa da possibilidade de utilização desses mesmos meios de prova em fase de inquérito ou de instrução”, escreveu o procurador no seu recurso.

Os desembargadores Ricardo Cardoso e Artur Vargues deram total razão ao procurador Rosário Teixeira. Num acórdão sintético (apenas 25 páginas) mas assertivo, o relator Ricardo Cardoso censura o raciocínio jurídico do juiz Ivo Rosa.

Em primeiro lugar, os desembargadores dizem que a decisão de Ivo Rosa “revela a confusão de conceitos jurídicos, de competência e funções do juiz de instrução”. E porquê?

Porque Ivo Rosa invoca normas do Código de Processo Penal que “se reportam às regras da audiência de julgamento, pelo que a decisão recorrida subverte e antecipa para a fase de instrução uma norma dirigida e integrada no regime da fase de julgamento”.

Ou seja, e como o Ministério Público tinha argumentado, o juiz do Tribunal Central de Instrução Criminal confunde conceitos jurídicos e “possibilidades de prova”, “sem querer perceber que o que está em causa é um mesmo objecto de prova e não um mesmo processo.”

Mais: de acordo com o relator do acórdão da Relação, Ivo Rosa “olvida o enunciado princípio de que o juízo de probabilidade razoável de condenação” aplicável “à pronúncia ou não pronúncia, não equivale ao juízo de certeza exigido ao juiz de julgamento na condenação”, escreve o desembargador Ricardo Cardoso.

Por isso, mesmo a Relação de Lisboa considera que, “ao pronunciar-se sobre a possibilidade de utilização em julgamento da prova por declarações como arguido de Hélder Bataglia constante da aludida certidão”, o juiz Ivo Rosa “extravasou a sua competência”, que está limitada pela lei, “violando a exclusiva competência do tribunal de julgamento pretendendo subtrair tal competência ao tribunal próprio dessa fase final ao efectuar a apreciação desses elementos de prova que só o juiz do julgamento tem competência para valorar”.

Por isso mesmo, os desembargadores Ricardo Cardoso e Artur Vargues declararam a nulidade insanável do despacho de Ivo Rosa que anulou a prova testemunhal de Hélder Bataglia e reafirmaram “a possibilidade de utilização como prova, em sede de instrução,” das declarações do ex-líder da Escom proferidas no caso Monte Branco.

Uma decisão idêntica já tinha sido tomada pela Relação de Lisboa em dezembro de 2019 em relação a um outro despacho de Ivo Rosa na Operação Marquês em que o juiz de instrução tinha determinado a anulação a transmissão da prova testemunhal de Ricardo Salgado no caso Universo Espírito Santo e Monte Branco.

 

 

Caso BES. Tribunal da Concorrência mantém condenação de Salgado mas reduz coima

Terça-feira, Setembro 8th, 2020

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Caso BES. Tribunal da Concorrência mantém condenação de Salgado mas reduz coima

O Tribunal da Concorrência condenou Ricardo Salgado e Morais Pires ao pagamento de 390 mil euros. Em causa, a violação de normas de prevenção de branqueamento e financiamento do terrorismo.

O Tribunal da Concorrência condenou esta segunda-feira Ricardo Salgado e Morais Pires ao pagamento de 290.000 e 100.000 euros, respetivamente, reduzindo as coimas aplicadas por violação de normas de prevenção de branqueamento de capitais e financiamento do terrorismo.

Na leitura da sentença do recurso apresentado pelo ex-presidente do BES, Ricardo Salgado, e pelo antigo administrador Amílcar Morais Pires, o Tribunal da Concorrência, Regulação e Supervisão (TCRS), em Santarém, absolveu os dois da condenação pela falta de mecanismos de controlo que havia sido aplicada pelo Banco de Portugal (BdP).

Contudo, condenou Salgado e Morais Pires, a título de dolo eventual, e não direto, pelas cinco contraordenações por incumprimento das obrigações de aplicação de medidas preventivas e de prestação de informações às autoridades de supervisão e de adoção de medidas preventivas suplementares nas sucursais no estrangeiro.

Neste processo, Ricardo Salgado e Amílcar Morais Pires contestavam as coimas de 350.000 e 150.000 euros, respetivamente, aplicadas pelo BdP pela não aplicação de medidas de prevenção de branqueamento de capitais e financiamento do terrorismo nas sucursais e filiais do banco em Angola, Cabo Verde, Miami e Macau.

Miguel Sousa Tavares: acusação a Salgado é “sólida e fundamentada”. “Há dinheiro que desapareceu”

Segunda-feira, Agosto 10th, 2020

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Miguel Sousa Tavares: acusação a Salgado é “sólida e fundamentada”. “Há dinheiro que desapareceu”

Não é pelo número de crimes imputados (65) ao ex-banqueiro mas pela “capacidade de os provar” que o escritor considera que a acusação a Salgado é “sólida”. O mesmo não acontece, diz, no caso Sócrates.

Miguel Sousa Tavares, cuja filha é casada com o filho mais velho de Ricardo Salgado, considerou, em entrevista ao Diário de Notícias, que a acusação ao ex-banqueiro, pelo Ministério Público, é “forte”, “sólida” e “fundamentada”, não pelo número de crimes imputados (65), mas pela “capacidade de os provar”.

Não é o número de crimes que torna a acusação forte, antes a capacidade de os provar depois, e aí parece-me que têm uma acusação mais sólida e fundamentada”, disse.

A acusação, defende, “baseia-se numa grande quantidade de documentos“. “De facto, há dinheiro que desapareceu. Isso é incontestável. Portanto, alguma coisa, não sei se tudo ou se uma parte, o Ministério Público há de conseguir provar em tribunal”, afirmou. Sousa Tavares admite, porém, que não leu a acusação — até porque “está além da minha paciência lê-la” — e que, por isso, conhece “mal” o caso.

Em 2015, o semanário Sol noticiou que Sousa Tavares teria investido cerca de dois milhões de euros no GES, através do fundo ES Liquidez, em cinco movimentos bancários realizados ao longo do ano de 2013. Mas o jornalista garantiu que não sabia. “Nunca, com o meu conhecimento ou autorização, fui investidor de produtos do BES e do GES”, disse ao jornal.

Por outro lado, o processo que envolve o ex-primeiro-ministro, José Sócrates, está suportado, defende Sousa Tavares, em “deduções sem provas” e baseia-se numa “testemunha comprada”, Hélder Bataglia. A única coisa que se sabe, diz, é que Sócrates “vivia à conta de um amigo”, o que “não é crime”, embora possa ser, “eventualmente, uma situação pouco digna para um primeiro-ministro”. “Toda a a tese do Ministério Público assenta em dois pressupostos: o dinheiro de Carlos Santos Silva era de facto de Sócrates e que todo esse dinheiro vinha de corrupção. Agora, como se diz em latim: quod erat demonstrandum; falta fazer a prova disso e essa não está nos autos.”

Ao Diário de Notícias, o também escritor defende ainda que a realização da Festa do Avante! é um “egoísmo” e uma “provocação” e que “devia ser cancelada”. Sousa Tavares vais mais longe e atira que a persistência do partido “equivale, quer queiram quer não, à mesma atitude de Trump e de Bolsonaro ao recusarem-se a usar máscara, querendo significar que não se passa nada de estranho e passa-se”. “Um só infetado que resulte da Festa do Avante! é diretamente imputável à direção do PCP.

Já o escândalo que envolve o rei emérito, Juan Carlos, e que levou à sua saída de Espanha, é “inominável”. “Se acontecesse com um Presidente português estaríamos de rastos.” Mas critica que “ninguém — a imprensa também — se dá ao trabalho de presumir a inocência daqueles que o Ministério Público apresenta na praça pública apenas como acusados, sem direito a contraditório, em muitos casos da justiça em Portugal”.

Como Salgado tentou evitar o colapso nos últimos meses

Terça-feira, Agosto 4th, 2020

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Negócios

Passaram seis anos desde a resolução do BES e ainda há detalhes por contar. No despacho de acusação do processo Universo Espírito Santo, o Ministério Público partilha a sua versão dos factos. Esta é a história, em cinco atos, dos meses que levaram ao colapso.

Há seis anos, o Banco de Portugal (BdP) anunciava ao país que o Banco Espírito Santo (BES) seria alvo de uma resolução. Era o culminar de anos de alegados crimes praticados por uma associação liderada pelo presidente do banco, Ricardo Salgado, e à qual pertencia um “grupo restrito” de pessoas da sua confiança. Era, também, o fim que, nos meses anteriores, o antigo banqueiro procurou evitar por todos os meios, sobretudo ilegais.

Várias foram as vezes que, nestes últimos seis anos, a história da queda do império Espírito Santo foi contada. As versões são várias. Há a do regulador, que diz ter feito tudo o que estava ao seu alcance e que, com a informação de que dispunha na altura, não podia ter feito mais. Há a dos antigos administradores, hoje arguidos e tidos como cúmplices de Salgado, que garantem apenas ter seguido ordens. Há a dos grandes e pequenos investidores, que se dizem enganados por prestações de contas falsas que os levaram a apostar em produtos de alto risco. Há, ainda, a dos que não acreditam que possa ser descartada a responsabilidade de supervisores, auditoras e mesmo agentes políticos.

Agora, também há a do Ministério Público (MP), que vê no maior esquema financeiro da história portuguesa um “one man show”, em cena durante anos, através do qual Ricardo Salgado ludibriou todos à sua volta. Esta é a história, em cinco atos, dos meses que levaram à resolução do BES, contada pelo MP.

I ATO

ETRICC, o princípio do fim

Para os procuradores que acusam Salgado de liderar uma associação criminosa, os alegados crimes terão sido praticados, sobretudo, a partir de 2009, quando a torneira dos mercados se fecha devido à crise financeira e o antigo banqueiro se vê obrigado a recorrer a cada vez mais esquemas de financiamento para manter ocultos os buracos nas contas do grupo.

Só em 2013 é que o véu sobre as contas do GES começa a ser levantado. A permitir estas revelações, acredita o MP, esteve o chamado ETRICC – Exercício Transversal de Revisão da Imparidade da Carteira de Crédito. Este foi um exercício imposto pelo BdP aos principais bancos nacionais, em duas fases. A primeira, realizada no primeiro semestre de 2013, permitiu que o regulador identificasse um conjunto de grandes grupos económicos cuja capacidade de reembolsar os créditos contraídos junto da banca dependia do cumprimento dos pressupostos que constavam dos respetivos planos de negócio.

Por isso, em setembro de 2013, o BdP decidiu lançar o ETRICC 2 para avaliar a prudência das provisões que tinham sido constituídas pelos bancos relativamente a estes grupos económicos.

Nestes grandes grupos económicos incluía-se o ramo não financeiro do GES. E é assim que, no final de 2013, as contas ocultas do grupo começam a ser descobertas. “O exercício ETRICC apanhou Ricardo Salgado desprevenido com a necessidade de entrega a auditores externos ao GES e a supervisores de elementos nucleares que revelavam os seus comportamentos criminosos de falsificação das contas da ESI ao longo de quatro anos”, relata o MP.

Os elementos que teriam de ser entregues revelariam que a parte não financeira do GES “não apresentava contas consolidadas e auditadas”. Em concreto, seria descoberto que os capitais próprios positivos da Espírito Santo International (ESI), a maior acionista do Espírito Santo Financial Group, por sua vez o braço financeiro do GES, “só o eram pela omissão, pelo menos, de 1.300 milhões de euros de dívida colocada em clientes”. Ao mesmo tempo, o grupo ESI tinha uma exposição ao universo Eurofin “que não era passível de recuperação instantânea e que agravava a impotência do grupo ESI em solver os seus compromissos junto de credores”.

Os alarmes dispararam. “Perante a situação inusitada que envolvia as contas da ESI, o BdP, em pleno ETRICC, impôs um exercício de auditoria às contas da ESI, que foi deferido à KPMG Portugal”, lembram os procuradores. Numa tentativa de “proteger o negócio bancário dos problemas que vinham da área não financeira do GES”, o BdP chegou mesmo a obrigar à constituição de uma conta para provisionar o papel comercial da ESI e a proibir que o GES financeiro aumentasse a sua exposição ao GES não financeiro.

II ATO

Rioforte, a chave

A terem sido cumpridas estas decisões do BdP, argumenta o MP, as fraudes que envolviam o GES teriam sido reveladas mais cedo. Mas Ricardo Salgado reagiu.

Estamos em dezembro de 2013, a oito meses da resolução do BES. Consciente de que qualquer solução que passasse por mais endividamento da ESI estava agora inviabilizada, Ricardo Salgado, “com conhecimento e adesão” dos primos José Manuel Espírito Santo e Manuel Fernando Espírito Santo e de outros funcionários do GES, “traçou, elaborou e concretizou um plano criminoso com o fim de adiar a insolvência do GES, quando o mercado ainda ignorava a insolvência técnica da ESI e suas consequências”.

É nesta altura que começa a ser executado o plano de reestruturação do GES, para o qual Salgado convocou, para além dos primos já referidos, Amílcar Morais Pires, o antigo administrador financeiro do BES, Isabel Almeida, então diretora do Departamento Financeiro, Mercados e Estudos do banco, João Martins Pereira, responsável pelo departamento de “compliance”, e o já falecido José Castella, fiscalizador financeiro do GES.

Este plano de reestruturação, na visão do MP, “não passou do trânsito dos ativos de valor do universo ESI para o grupo Rioforte”. A Rioforte, recorde-se, era então integralmente detida pela ESI, a “holding” que concentrava todas as participações do GES no ramo não financeiro. No âmbito deste plano de reestruturação, a Rioforte substituiu a ESI e passou, então, a concentrar estas participações do GES.

O plano previa a aquisição pela Rioforte da totalidade da ES Irmãos, “holding” que controlava 10,3% na ESFG, e a aquisição pela ES Irmãos dos 39,23% detidos pela ESI no capital da ESFG. A Rioforte passaria, então, a ser detentora de 49,26% do capital social desta última sociedade, assumindo o papel de “holding” operacional de topo do GES, ao mesmo tempo que a ESI seria progressivamente “desativada”.

Para o sucesso deste plano, a Rioforte teria de comprar estas participações pelo “valor empolado por que a ESI havia registado nas suas contas a participação na ESFG, sob pena de agravar a sua situação patrimonial desastrosa”. Para alcançar este objetivo, Ricardo Salgado é acusado de ter pressionado o BESI (o banco de investimento do GES que, então, era liderado pelo primo José Maria Ricciardi) a avaliar as ações da ESFG em mais de 300% do que o seu real valor. Assim, a ES Irmãos comprou as ações da ESFG, que na altura cotavam na casa dos 5 euros, por 21,07 euros cada.

Para adquirir estas participações, a Rioforte teria ainda de realizar um aumento de capital de 1.110 milhões de euros.

III ATO

Papel comercial

O plano de reestruturação do GES teve uma segunda fase, que o MP vê como o último grande golpe de Salgado. Foi este, também, o que maiores prejuízos causou ao GES, seus investidores e clientes.

Em causa, a colocação de papel comercial, sobretudo junto dos clientes de retalho. Entre janeiro de 2014 e o final de junho de 2014, pouco mais de um mês antes do colapso do BES, foi emitida dívida da Rioforte no valor total de 4,17 mil milhões de euros, um montante suficiente para cobrir a dívida da ESI.

Para conseguir colocar estes títulos, a situação de insolvência do grupo e o crescente endividamento da Rioforte teriam de ser ocultados. E foi isso, precisamente, que foi feito. “Àqueles investidores foi ocultado que o grupo Rioforte adquirira a participação do GES na ESFG por valor muito superior ao real com base em estudo de avaliação elaborado pelo BESI, controlado e manipulado por Ricardo Salgado para que ultrapassasse em muito o valor da cotação das ações em bolsa e para que não refletisse os impactos patrimoniais diretos nas unidades da ESFG”.

Foram ainda omitidos “os efeitos da reestruturação do GES na situação financeira da Rioforte, designadamente o aumento exponencial da dívida de curto prazo” para comprar a participação na ESFG. Por fim, foi ocultado que o plano dos administradores, hoje arguidos, passava por canalizar capital para a ESI, para impedir que esta entrasse em incumprimento.

Dos 4,17 mil milhões de euros emitidos pela Rioforte durante estes meses, 2,22 mil milhões ficaram por reembolsar. Esta é a maior parcela dos prejuízos de 11,8 mil milhões de euros que o MP considera terem sido causados pelos alegados crimes de Salgado.

IV ATO

Do aumento de capital à saída

Para que a reestruturação pudesse ser concretizada, Salgado continuou, na tese do MP, a ordenar a prestação de informações falsas às auditoras. Foi com base nestas informações falsas, depois transmitidas ao BdP, que o regulador acabou por considerar suficiente uma provisão de 700 milhões de euros na ESFG. E foi essa conclusão, por sua vez, que permitiu que as contas do BES de 2013 fossem legalmente certificadas e que, por fim, o banco pudesse realizar um aumento de capital em junho de 2014.

O aumento de capital ficou concluído a 11 de junho de 2016. O banco colocou 1.045 milhões de euros, numa operação em que a procura superou a oferta. Hoje, este aumento de capital é um dos casos que o MP quer investigar de forma autónoma.

Daqui até à saída de Salgado do BES passaram-se dias. Ainda em maio de 2014, em entrevista ao Negócios, Salgado admitia que “todos” tinham cometido “erros no grupo”, mas recusava demitir-se. Em junho, a Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM) já pedia que o BES esclarecesse se se confirmavam as notícias que apontavam para a saída do banqueiro.

A 20 de junho, Salgado abandona a presidência do BES.

V ATO

A resolução

Daqui até à resolução foi outro piscar de olhos. Este último ato arranca a 30 de julho de 2014, quando o BES apresenta um prejuízo semestral histórico, de 3.577 milhões de euros. De imediato, anuncia um novo aumento de capital.

A 1 de agosto, as ações do banco derrapam em bolsa e a CMVM suspende a negociação dos títulos.

A 3 de agosto de 2014, um domingo, Carlos Costa comunica que o BES ia ser dividido numa parte boa (que passaria a chamar-se Novo Banco) e numa parte má, no âmbito da medida de resolução.

 

O véu sobre as contas do GES começa a cair no final de 2013, com o ETRICC.

 

O papel comercial da Rioforte gerou perdas de 2,2 mil milhões.

#Episódio 8. A quem Salgado pagou, um nome de código usou

Quinta-feira, Julho 30th, 2020

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#Episódio 8. A quem Salgado pagou, um nome de código usou

 

Pititi, Matateu, Castilho, Pargo, Jaguar, Baixinho ou Roadshow são alguns do nomes em código dados a funcionários do GES, de forma a transferir dinheiro de forma oculta. A acusação revela a lista.

Pititi. Matateu. Castilho. Imahala Panzi. Pargo. Caramujo. Hanham. Doismiledez. Jaguar. Labutes. Baixinho. Roadshow. Medufushi. Rabina. Centurion. Alforreca. Poirier. Detox. Tomix. Kombucha. Estes foram os nomes de código que a Justiça conseguiu decifrar ao longo dos seis anos de investigação do chamado processo do Universo Espírito Santo. Nomes dados a alguns funcionários do BES, incluindo um dos filhos de Salgado, que recebiam dinheiro através de quatro empresas diferentes e de forma oculta.

Nas várias páginas de Excel da acusação do Departamento Central de Investigação e Ação Penal (DCIAP) — conhecida no dia 14 de julho — os sete procuradores aperceberam-se que estes beneficiários estavam identificados todos com pseudónimos e nomes em código, como se de espiões se tratassem.

O ex-líder do BES terá pago prémios e contrapartidas a uma série de funcionários e colaboradores do Grupo Espírito Santo, de forma oculta, através de quatro empresas. E terá conseguido “desviar centenas de milhões de euros, usando linhas de comunicação privadas, via private net, com o propósito de manterem oculta a prática criminosa, reiteradamente desenvolvida ao longo de anos”, explicou a acusação do MP, a que o ECO teve acesso.

 

E que empresas funcionavam então como sacos azuis? A Enterprises, Alpha Management, Clauster Limited, criadas no Belize e a Balenbrook Investments, criada nas Ilhas Virgens Britânicas. Tudo para despistar as autoridades nacionais. Operações ocultas que serviram para remunerar 15 funcionários do BES, incluindo Ricardo Salgado, datadas entre 2005 e 2014.

Desde logo Isabel Vaz, presidente da comissão executiva do grupo Luz Saúde, identificada pelo pseudónimo Pititi, Tomás Fonseca pelo pseudónimo Matateu, João Novais por Castilho e Ivo Antão por Imahala Panzi. Estes gestores da Espírito Santo Saúde, por exemplo, terão recebido bónus e pagamentos mensais através da Enterprises, no ano de 2011, conforme o Ministério Público conseguiu apurar.

Já João Freixa, ex administrador do BES, cujo nome de “guerra” era Jaguar, recebeu mais de meio milhão de euros em prestações mensais, entre 2008 e 2013. Ricardo Bastos Salgado, filho de Ricardo Salgado, era o Labutes e terá recebido mais de 500 mil euros euros, através de transferências mensais feitas entre 2008 e 2014.

João Alexandre Silva ganhava nesta corrida. Já que teve direito a três nomes de código: Pargo, Caramujo e Hanham. O ex diretor-geral da sucursal do BES na Madeira, e do Departamento de Banca Internacional do BES recebeu 1,1 milhões de euros da Enterprises, 477 mil e 500 euros da Alpha e 210 mil euros da Balenbrook. Paulo Jorge, seu adjunto, tinha uma conta na Suíça em nome de Doismiledez e terá recebido 971 mil euros via Enterprises e 380 mil euros com o nome Alpha, entre 2010 e 2014.

José Macedo Pereira — antigo revisor oficial de contas de empresas do BES — era o Poirier e terá recebido 47 mil e 500 euros. Pedro Amaral era o Detox e terá recebido 40 mil e 500 euros.

Já Rui Guerra, que substituiu Álvaro Sobrinho na presidência do BESA, recebeu 40 mil euros e estava identificado como Tomix. José Pedro Caldeira da Silva, que foi diretor-executivo do banco, era o Kombucha.

Teresa Amorim, antiga secretária de Ricardo Salgado, era o Baixinho, tendo recebido perto de 371 mil euros. Elsa Ramalho, que tratava das relações com os investidores, era o Roadshow e recebeu 294 mil euros da Enterprises. Pedro Cohen Serra, do departamento financeiro do BES, era o Medufushi e recebeu perto de 300 mil euros, Paulo Ferreira era identificado como Rabina e recebeu 115 mil euros, Guilherme Moraes Sarmento, que trabalhava na direção de desenvolvimento internacional, tinha uma conta em nome de Centurion (81 mil euros) e Pedro Cruchinho, que viria a ser nomeado presidente da Comissão Executiva do Banco Económico em Angola (que derivou do BESA), tinha outra conta em nome de Alforreca (através da qual recebeu 100 mil euros).

A investigação ao Universo Espírito Santo resultou em 25 acusados, entre 18 pessoas e 7 empresas, segundo o despacho de acusação de 4.117 páginas do Ministério Público. Ricardo Salgado foi acusado de 65 crimes, entre eles o de associação criminosa.

São muitos os crimes de que são acusados, entre eles o crime de associação criminosa e os crimes de corrupção ativa e passiva no setor privado, de falsificação de documentos, de infidelidade, de manipulação de mercado, de branqueamento e de burla qualificada contra direitos patrimoniais de pessoas singulares e coletivas.

De acordo com a Procuradoria-Geral da República, “a investigação levada a cabo e que termina com o despacho de acusação em referência apurou um valor superior a 11 mil e oitocentos milhões de euros, em consequência dos factos indiciados, valor que integra o produto de crimes e prejuízos com eles relacionados”.

Este artigo faz parte de uma série de episódios da “Novela BES” e que contam os bastidores, os negócios, as intrigas, as alianças e as traições que marcaram a queda do Grupo Espírito Santo. As histórias e os relatos têm por base a informação do despacho de acusação anunciado pelo Ministério Público no dia 14 de julho de 2020, no âmbito da investigação ao “Universo Espírito Santo”.

#Episódio 7. Lesados do BES compraram gato por lebre

Quarta-feira, Julho 29th, 2020

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#Episódio 7. Lesados do BES compraram gato por lebre

A acusação do Ministério Público explica como é que centenas de investidores privados aplicaram o dinheiro em papel comercial e se tornaram nos “lesados do BES”, perdendo milhões.

As duas vendas de imóveis feitas pelo Novo Banco que se encontram em análise pela Procuradoria-Geral da República geraram uma perda de 380 milhões de euros. Mas estas não foram as únicas operações em que o banco liderado por António Ramalho perdeu dinheiro, obrigando o Fundo de Resolução a injetar dinheiro na instituição.

Ricardo Salgado, Amílcar Pires e alguns dos restantes arguidos do processo BES “contribuíram para precipitar as decisões de investimento de clientes que foram aliciados a realizar investimentos num produto apresentado como não tendo perspetiva de risco, com taxas de remuneração atrativas, e que permitia a mobilização temporária de recursos em entidades com uma imagem de sanidade financeira deturpada, quando na realidade estavam a ser conduzidos para os atos que, desde o início, eram pretendidos por Ricardo Salgado e que eram ruinosos em termos patrimoniais“.

Esta é a explicação dada pelo Departamento Central de Investigação e Ação Penal (DCIAP) no que aos chamados lesados do BES toca. Segundo o Ministério Público, cuja acusação foi conhecida a 14 de julho, o ex-líder do BES, Ricardo Salgado “quis e conseguiu causar sérios danos patrimoniais nos clientes investidos em papel comercial da Espírito Santo Internacional e da Rioforte, e no próprio BES“.

Em 2017 foi encontrada uma solução (entre a associação de lesados, Governo, CMVM e BdP) para os clientes que, aos balcões do BES, investiram 434 milhões de euros em papel comercial das empresas Espírito Santo Financial e Rio Forte, e cujo investimento perderam com o colapso do Grupo Espírito Santo (no verão de 2014). A solução implicou que os lesados que aderiram ao Fundo de Recuperação de Créditos recuperassem 75% do valor investido, num máximo de 250 mil euros, isto se tiverem aplicações até 500 mil euros. Já acima desse valor, o valor recuperado seria de 50% do investimento.

 

Segundo a acusação do DCIAP – conhecida a 14 de julho – Ricardo Salgado terá sido o cérebro de uma rede criminosa, dentro GES e do BES, de forma a cometer sucessivos crimes “de forma organizada”. No total, são 65 crimes que o Ministério Público imputa a Ricardo Salgado, entre eles um crime de associação criminosa. São 29 crimes de burla qualificada e 12 crimes de corrupção ativa no setor privado. E ainda branqueamento de capitais, falsificação de documentos, fraude no comércio internacional e desvio de fundos.

Desta feita, na lista do grupo dos lesados estão viúvas e até emigrantes. Um dos casos referidos na acusação é o de uma senhora reformada, com apenas 265 euros de reforma mensal e que investiu 100 mil euros.

“A relação contratual com o cliente para este produto foi estabelecida sem qualquer perfilagem pelos serviços do banco para se perceber se o subscritor sabia que tipo de instrumento subscrevia, se investia todas as suas posses neste produto e se tinha condições para acomodar patrimonialmente uma eventual perda integral do investimento feito”, pode ler-se no despacho de acusação.

Diz ainda a acusação que, ao criar a “possibilidade de os clientes privados poderem investir em papel comercial em 2013, Ricardo Salgado posicionou os clientes de retalho do Grupo BES, não profissionais, para comprarem diretamente dívida de empresas que não só estavam em situação insolvente como apresentavam publicamente uma imagem patrimonial falsa, quer pela inexistência de investidores institucionais que absorvessem os impactos do desinvestimento dos FEI [fundos especiais de investimento], quer pela impossibilidade de recurso dos bancos GES para financiarem as holdings de topo da área não financeira do GES para que estas pagassem a dívida colocada nos FEI da ESAF”.

“Todo este procedimento foi minado por Ricardo Salgado, que deu instruções a José Castella e a Francisco Machado da Cruz para que em toda a cadeia de implementação da solução encontrada — da construção de programas de papel comercial doméstico aos formulários assinados pelos clientes — fosse plantada informação falsa, no caso da ESI, e informação inverídica, no caso da RFI, sempre no sentido de ocultar a insolvabilidade das emitentes”, concluiu a acusação.

Há ainda 21.253 reclamantes cujos créditos não foram reconhecidos pela comissão liquidatária. São, em grande parte, investidores que perderam o dinheiro aplicado em papel comercial da ESI e da Rioforte, por quem o BES diz não ser responsável, já que estas eram empresas do GES.

Em Portugal, o Novo Banco é o maior credor, com um crédito reconhecido de 277 milhões de euros, mas na lista encontra-se também Ricardo Salgado, Patrick Drahi ou as empresas falidas do GES. Internacionalmente, o maior credor é o Pimco, que tem 568 milhões de euros por recuperar.

Tal como o ECO antecipou há duas semanas, há ainda um grupo de quase 200 lesados que querem que os reguladores – BdP e CMVM – e o Estado estejam igualmente ao lado de Ricardo Salgado como responsáveis pelo colapso do Banco Espírito Santo. Para isso, segundo o que explicou o advogado Miguel Reis, a estratégia passará por este grupo se constituir assistente no processo, de forma a ter acesso ao mesmo e para requererem a abertura de instrução.

#Episódio 2. A carta que Passos Coelho devolveu a Ricardo Salgado

Sexta-feira, Julho 24th, 2020

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Eco

#Episódio 2. A carta que Passos Coelho devolveu a Ricardo Salgado

Salgado queria “alimentar” a ESI colocando a dívida da Rioforte nos clientes de retalho do Grupo BES. Mas o BdP não deixou. Teve de recorrer a Passos, mas o então primeiro-ministro rejeitou o pedido.

Corria o ano de 2014 e Ricardo Salgado, Amílcar Pires e José Manuel Espírito Santo tinham (mais um) problema em mãos. Antecipando a falta de dinheiro para reembolsar a dívida da Espírito Santo International (ESI), de acordo com a acusação do caso BES, os três arguidos tinham um plano: suprir as necessidades de capital da ESI colocando a dívida da Rioforte junto dos clientes de retalho do Grupo BES. Mas o cenário complicou-se quando, da parte do Banco de Portugal (BdP), ouviram sucessivos e redondos “nãos”.

Às cartas de 17 de março do BES e da ESFG, a 25 de março, o BdP respondeu, reafirmando a “proibição de comercialização junto de clientes de retalho do BES de papel comercial emitido por qualquer entidade do ramo não financeiro do GES”, segundo o despacho da acusação do DCIAP explica.

Mas, não obstante o teor inequívoco da resposta do BdP, os arguidos não desistiram dos seus propósitos de continuar a colocar dívida da Rioforte em clientes de retalho do BES, e, novamente, por carta de 2 de abril de 2014, assinada por Amílcar Pires, pediram autorização para renovarem o papel comercial emitido pela Rioforte e colocado junto dos clientes de retalho do Grupo BES até ao final do primeiro semestre de 2014. E continuaram. Confrontados com a posição do BdP de proibir a colocação de papel comercial da Rioforte junto dos clientes de retalho do BES, voltaram a enviar uma carta para o supervisor, desta vez assinada pelo próprio Salgado.

Insatisfeitos com as determinações do BdP, os arguidos decidiram lançar uma série de iniciativas junto de decisores políticos no sentido de obter uma mudança da posição do BdP.

Para tanto, entre a última semana do mês de março e a primeira de abril de 2014, e após lhes solicitar audiências, Salgado reuniu-se com vário titulares de cargos políticos: Paulo Portas, Cavaco Silva, Pedro Passos Coelho; e, no dia seguinte, com a Ministra das Finanças, Maria Luís Albuquerque. A todos eles, o ex-líder do BES, agora acusado por 65 crimes, manifestou o seu desagrado com as posições assumidas pelo BdP. Tendo entregue ao Presidente da República Cavaco Silva e ao Primeiro-Ministro Pedro Passos Coelho a mesma carta que havia remetido ao Governador do BdP, carta que Pedro Passos Coelho, após a sua leitura, lhe devolveu.

“Insatisfeitos com as determinações do BdP, os arguidos decidiram lançar uma série de iniciativas junto de decisores políticos no sentido de obter uma mudança de posição do BdP de proibir a colocação de papel comercial da Rioforte em clientes de retalho do BES.”

Acusação do Ministério Público

Apesar da posição do BdP, que proibia a “comercialização, quer de forma direta quer indireta, de dívida de entidades do ramo não financeiro do GES junto de clientes de retalho” do BES, os arguidos não deixaram de fazer com que que os Fundos ES Investements Liquidity e Caravela Short Term continuassem a investir em títulos de dívida emitidos por sociedades do ramo não financeiro do GES, assim possibilitando a violação daquela determinação.

A acusação refere que, entre 14 de fevereiro e 23 de junho de 2014, e em violação da determinação do BdP, aqueles fundos investiram 729,7 milhões de euros em títulos de dívida de sociedades do ramo não financeiro do GES, como a Rioforte. Cujas unidades de participação eram, em parte, detidas por clientes de retalho do Grupo BES, designadamente clientes do BES, do BEST e do BAC.

Ricardo Salgado foi acusado pelo Ministério Público de 65 crimes, que vão desde associação criminosa, burla qualificada, infidelidade, branqueamento de capitais, entre outros. Na passada semana, o Ministério Público acusou 18 pessoas e sete empresas por vários crimes económico-financeiros e algumas das quais por associação criminosa, no processo BES/Universo Espírito Santo, em que o principal arguido é o ex-banqueiro Ricardo Salgado.

Este artigo faz parte de uma série de episódios da “Novela BES” e que contam os bastidores, os negócios, as intrigas, as alianças e as traições que marcaram a queda do Grupo Espírito Santo. As histórias e os relatos têm por base a informação do despacho de acusação anunciado pelo Ministério Público no dia 14 de julho de 2020, no âmbito da investigação ao “Universo Espírito Santo”.

#Episódio 5. A agenda pessoal de Salgado nos últimos dias do GES

Sexta-feira, Julho 24th, 2020

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#Episódio 5. A agenda pessoal de Salgado nos últimos dias do GES

Os últimos dias antes da queda do grupo foram vividos por Ricardo Salgado com “uma intensidade horrível”. Ex-líder do BES apontou na sua agenda pessoal calendário de reembolsos em risco de default.

Em junho de 2014, nos últimos dias da derrocada do Grupo Espírito Santo (GES), o dia-a-dia de Ricardo Salgado estava a ser vivido “com uma intensidade horrível”, conforme chegou a confessar numa reunião do conselho superior do GES que teve lugar início daquele mês. Não era para menos. Ao longo daquele mês, venceria um conjunto de obrigações cujos reembolsos estavam em risco devido às dificuldades em obter novo financiamento para os reembolsos, antecipando-se o colapso.

Nessa altura, conta o Ministério Público no despacho de acusação no âmbito da investigação “Universo Espírito Santo”, Ricardo Salgado acompanhava de perto todos os montantes de dívida vincendos do GES, assim como os esforços das diferentes unidades bancárias da Espírito Santo Financial Group (ESFG) para colocarem nova dívida da Rioforte para fazer face aos reembolsos.

Todas estas operações foram “objeto de anotações profusas por si manuscritas na sua agenda pessoal”, descreve o Ministério Público. A agenda pessoal de ex-líder do BES foi um dos documentos apreendidos, tendo ajudado os magistrados do DCIAP a cruzar informações com outros documentos na investigação à queda do BES.

Estas são as entradas manuscritas por Ricardo Salgado na sua agenda relativa ao mês de junho de 2014:

– A 06.06.2014, “BANDES (29€) PC Rio Forte ESAF: (16€) ESAF + 25”;
− A 09.06.2014, “Papel Comercial R.F. 5,2 Fid. ESI 3,7 Faltam ao J. (…) 8,0”;
− A 10.06.2014, “Property PC 5M€, Fid. ESI 1,5€, ESFG/ ESFIL 12,5€, (8.5) Saldo Dev. B. Privee, (1.5) Fid. ESI, (2.5) FSM Property, (12,0) ESFIL Liq., = 24,5, 12.0 (Luis G), = 12,5 –Saldo,11.0 – Saldo no Jean Luc = 1,5 Falta, Fid. 1,5, Property : 2,5, ESFIL: 12 (12 – (8)=
4) = 14,5, 11,00, = falta 3,5”;
− A 11.06.2014, “P. Com. RF: 32,2€, P. Com. RF: 143,9US, Fid. ESI: 4,7€, Confirmados 28M US$, Confirmados 25M€, € Não renováveis 7,2, US$ Não renováveis 117”;
− A 12.06.2014, “P. Com. RFl 11,8€ / 7,2€ / 9,8 US, ESFIL (ECP) 12€”;
− A 16.06.2014, “159 US$ / 38€ + PC -> renovados / J(..) 45M€, -> Saldo negativo no BES: 27 M€ PC Rio F., Saldo negativo no B. Privee / PC Rio F. 7M€, Saldo negativo ESAF: 4M, Total 38M€”;
− A 19.06.2014, “Saldo 10,7M€ – 6,4M€ ESI / 3,7 PC Rio F. / 2,0 Fid. ESI, Entrada: 1,5 ESI Note renoval.”;
− A 20.06.2014, “Rio Forte P. Com. 35,8M€, ESI B. Privee 46,4M€, Fid. ESI 5,5 =88,0M€”;
− Também a 20.06.2014, “Dívida vencida e a vencer ESI – 4,3M€ / 12M USD, R. Forte-60M€, BCP HOT. TIV – 7M€, CGD OPWAY -25M€, = 150M€”;
− A 23.06.2014, “B. Priv. P. Com. RF 61,1M€, Fid. ESI 6M€”;
− A 24.06.2014, “P. Com. EuroAm, Rio F 6M, Fid. ESI 1,4 m€ = 7,4”;
− A 25.06.2014, “P.Com. Rio F 4,5M€, Note ESI 5,3, = 9,8”;
− A 30.06.2014, “P. Com Rio Forte 3,3, Fid. ESI 23,7M€”;

São anotações telegráficas, com muitas siglas de sociedades ligadas ao universo Espírito Santo e números e mais números sobre a dívida que estava prestes a vencer. Embora de difícil leitura, as notas permitiram a Ricardo Salgado ter uma noção exata da situação em que o grupo se encontrava.

Havia uma preocupação especial com eventuais incumprimentos naquela altura, o que justificava um acompanhamento próximo do ex-líder do BES. Estava em curso um aumento de capital do banco e notícias negativas poderiam perturbar aquela operação, como chegou a avisar João Gomes da Silva, ex-assessor da administração, por e-mail: “A verificação de um default da ESI antes do aumento de capital do BES implica a paragem do processo [de aumento de capital do BES], a emissão de uma adenda ao prospeto e a atribuição do direito de revogar a subscrição”. A subscrição de ações terminou a 9 de junho, a 16 procedeu-se à liquidação financeira das subscrições.

Gomes da Silva alertou ainda para o risco que um default imediatamente a seguir à conclusão do aumento de capital poderia ter: “Acabaria por ser um cenário tão mau ou pior do que o anterior, visto que o que aparece aí é o risco de uma litigância sem fim contra a ESFG e o BES, caso se demonstre que tivessem conhecimento de factos que levariam a este desfecho, não os tendo comunicado. Esta realidade, dobrada com a presunção de culpa que existe pela elaboração do prospeto no aumento de capital para o BES e os seus responsáveis, teria bem pouca margem de defesa”.

Caixa disse não, solução passou pelo BES

“Estes dias têm sido absolutamente impossíveis”, admitiu José Manuel Espírito Santo, também ele um dos acusados, na reunião do conselho superior do GES no dia 2 de junho de 2014, em que se debateu um eventual pedido de ajuda para evitar o colapso do grupo.

Em plena reunião, Salgado chegou mesmo a telefonar ao governador do Banco de Portugal, Carlos Costa, para o “sensibilizar” em relação a essa possibilidades. Ou, pelo menos, que “pudesse dar uma palavrinha ao presidente da Caixa”, na altura liderada por José de Matos.

Em cima da mesa estaria um empréstimo do banco público na ordem dos 2,5 mil milhões. Na altura, Salgado também havia falado com o primeiro-ministro Passos Coelho e outros membros do Governo e ainda com o presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso, no sentido de obter ajuda. Mas sem sucesso.

A solução alternativa à Caixa para evitar que a Rioforte entrasse em incumprimento passou por um empréstimo bancário contraído junto do BES, no valor de 135 milhões, que veio a ser aprovado pela comissão executiva do BES de 12 de junho de 2014.

Quatro dias depois, a Rioforte recebeu a primeira tranche: 27,75 milhões que foram utilizados no reembolso de papel comercial no valor de 26,1 milhões. Os remanescentes 107,25 milhões foram creditados na conta da empresa no dia 19 de junho, tendo seguido para a ESI.

Segundo o Ministério Público, esta operação provocou uma perda de 139 milhões de euros no BES.

Este artigo faz parte de uma série de episódios da “Novela BES” e que contam os bastidores, os negócios, as intrigas, as alianças e as traições que marcaram a queda do Grupo Espírito Santo. As histórias e os relatos têm por base a informação do despacho de acusação anunciado pelo Ministério Público no dia 14 de julho de 2020, no âmbito da investigação ao “Universo Espírito Santo”.

“Salgado não é nenhum gangster.” Júdice elogia o “grande banqueiro” e não gostou do “riso sardónico” de Mortágua

Segunda-feira, Julho 20th, 2020

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ZAP

 

O antigo Bastonário dos Advogados, José Miguel Júdice, considera que Ricardo Salgado foi “um grande banqueiro” e que “não era um gangster”, realçando que não acredita que pudesse “fazer aquilo tudo sem que mais ninguém soubesse”.

Declarações numa entrevista ao jornal Sol, onde o advogado e actual comentador da SIC começa por referir que “Ricardo Salgado era considerado e com razão um grande banqueiro”.

“No entanto, ele, ao contrário do que se pensava, não tinha muito poder. Ele era apenas a expressão de uma família com centenas de accionistas, digamos assim, cada um com os seus pontos de vista e os seus interesses”, constata ainda Júdice.

Na mesma entrevista, o ex-Bastonário também refere que Salgado “tinha de gerir a sua base de apoio” e “também de gerir o banco”. Além disso, “quando o Banco Espírito Santo [BES] foi nacionalizado, em 1975, e quando foi possível à família recuperar o banco ela pagou mais do que aquilo que o banco valia, mas ninguém lhe tinha pago na nacionalização aquilo que o banco valia”.

“Foi comprado com enorme endividamento e quando as coisas se compram com enorme endividamento a margem de sobrevivência é muito limitada”, repara Júdice, concluindo que “tudo indica que a partir de 2008 ou 2009, a tentativa de resolver todos estes problemas com todas as condicionantes impostas pela crise terão levado a que se fizessem certo tipo de procedimentos que, possivelmente, são práticas criminosas“.

Mas “o Ricardo Salgado não era um gangster”, continua. “Cometeu erros, pode até ter cometido crimes, mas não vale a pena dizermos que o Ricardo Salgado é um malandro sem pensar em mais nada”, constata ainda Júdice.

O advogado acrescenta que não está “a desculpar o Ricardo Salgado”. “Se cometeu crimes deve ser julgado e punido exemplarmente porque é uma pessoa responsável. Mas facilita muito simplificar e dizer: ‘A culpa é daquele senhor””, aponta.

“Não acredito que, se de facto o Ricardo Salgado cometeu aqueles crimes todos, tivessem sido três ou quatro pessoas fechadas num gabinete às escuras a fazer aquilo tudo sem que mais ninguém soubesse“, salienta ainda Júdice.

O “riso sardónico” de Mortágua num debate sobre corrupção

Esta entrevista do actual comentador da SIC ao Sol foi abordada durante a sua participação no programa “Expresso da Meia-Noite” da SIC Notícias, onde se discutiu precisamente o caso BES.

Neste programa, Júdice reforçou a ideia de que Salgado “foi um bom banqueiro” que “cometeu gravíssimos erros, criminais ou não”.

O ex-advogado também salientou que Jardim Gonçalves foi outro “grande banqueiro” que “cometeu erros que são censuráveis”.

Jardim Gonçalves, fundador do BCP, foi condenado em tribunal a 2 anos de prisão, com pena suspensa, pelo crime de manipulação de mercado.

No mesmo programa televisivo, Júdice foi confrontado pelo jornalista Bernardo Ferrão com a ideia de que os advogados andam muito ligados à corrupção devido à profissão que exercem. O ex-advogado ripostou com “o perigo das generalizações”.

Em “40 e tal anos de vida profissional como advogado que se levante o primeiro que me possa atirar uma pedra de eu ter participado, colaborado ou pactuado com um acto de corrupção”, acrescentou a seguir o antigo Bastonário.

Olhando para o outro lado do painel de investigadores, onde estava Mariana Mortágua, disse-lhe então “não se ponha a rir”. É um “riso sardónico que não lhe fica bem”, considerou ainda. “Não sabe o que foi a minha vida”, concluiu.

Mariana Mortágua que integrou a Comissão Parlamentar de inquérito à gestão do BES/GES não chegou a referir-se directamente a Júdice, nem tão pouco a explicar o seu sorriso.

Em Março deste ano, a ex-diplomata Ana Gomes revelou, precisamente na SIC, ter na sua posse “factos e documentos” contra Júdice sobre a sua alegada participação em “esquemas de advocacia que fazem parte do polvo de corrupção que tem envenenado o nosso país”.