Com uma banca assim não há país que resista

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Sábado Opinião Rui Hortelão

O Banif caiu em desgraça. Depois do BPN, do BPP e do BES – sem falar das suspeitas que ensombraram o Montepio Geral –, também o banco liderado por Jorge Tomé se afunda. As semelhanças com situações anteriores envergonham qualquer um que tenha a mínima consciência de que só razões para lá da normalidade podem explicar que os bancos em Portugal tombem como peças de dominó. Culpados há muitos. Cúmplices também. Mas todos juntos são, ainda assim, uma insignificante minoria quando comparados com o número de vítimas dos erros sucessivos de gestão, da megalomania de alguns, suportada na conveniência política ou empresarial de outros. O problema é que as acções destes poucos reflectem-se na vida de muitos, os cidadãos portugueses, que nos últimos anos têm sido chamados a pagar – literalmente – as facturas dos negócios feitos pela nossa elite de banqueiros. Há excepções, claro, mas a sucessão de falências, capitalizações e restruturações demonstram bem qual é a regra que tem imperado no nosso sector financeiro.

Só desde que Portugal teve de se entregar às ordens da troika, o Estado já recapitalizou cinco bancos. Através da linha de recapitalização do programa de assistência financeira, injectou 5.600 milhões de euros na banca privada – BCP, BPI e Banif –, 1.650 milhões na Caixa Geral de Depósitos. A estes montantes somam-se os 4.900 milhões que o Fundo de Resolução colocou no Novo Banco. No total, a banca nacional precisou de 12.150 milhões de euros, directos, para prosseguir com a sua actividade.

Com o Banif o fado repetiu-se. Mais uma vez, o problema vinha de longe. Mais uma vez, o Estado interveio – em 2012, foram injectados 1.100 milhões de euros. Mais uma vez o líder do banco em risco garante que a instituição é sólida e até tem uma “liquidez confortável”. Mais uma vez, o Banco de Portugal assegura que os depositantes nada têm a temer. Mais uma vez, os mais altos responsáveis foram alertados meses antes para os perigos eminentes. Mais uma vez, as medidas aplicadas revelaram-se meros analgésicos e os males continuaram a alastrar até se tornar inevitável recorrer a soluções ainda mais penosas para os contribuintes. Porque seja qualquer for a solução encontrada para o Banif, serão os portugueses a suportar o seu custo. Mais uma vez.

Casos menores, mas relevantes
José Pacheco Pereira, cronista da SÁBADO, foi nomeado pelo Governo para a Administração de Serralves. Pode-se discordar das suas posições políticas e defender até que estas justificam a sua expulsão do PSD. O que não faz sentido é reduzir a mera recompensa política a nomeação para um cargo não remunerado e para o qual Pacheco Pereira tem competências comprovadas. Não custa acreditar, porém, que este convite seria endereçado a outro se Pacheco Pereira tivesse estado ao lado de Passos Coelho. De qualquer forma, o convidado só tem alguma responsabilidade se tiver negociado o cargo à partida. E, neste caso, é evidente que Pacheco Pereira não o fez.

Em contraciclo com tudo o que de negativo há a apontar à nossa política, assinala-se um caso positivo. Fernando Medina herdou a Câmara Municipal de Lisboa de António Costa e, na prática, só se fez político completo nesse momento, porque antes preferira sempre a discrição, as funções executivas às de palco. Esta semana, numa reunião descentralizada de duas freguesias de Lisboa, quando confrontado pelos moradores do Arco do Cego com os efeitos das obras camarárias em curso naquela zona, Fernando Medina falou como é raro ouvir-se falar um autarca: “Está bom de ver que a água vai entrar em casa de alguém.” E, a seguir, deu ordens aos técnicos para encontrarem soluções eficazes para “100% dos casos”. Esperemos que cumpra e, já agora, que mantenha o discurso sincero e assertivo. Portugal precisa de quem trabalhe assim.

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