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Ricardo Ângelo ligou ao advogado para lhe dar a notícia o mais depressa que pôde – assim que atendeu os pacientes que o esperavam no consultório de dentista onde trabalha. Acabara de falar pessoalmente com António Costa e ele estava disposto a ajudar. No lobby do Hotel Montebelo, em Viseu, a 27 dias das legislativas, o então candidato do PS a primeiro-ministro tinha ouvido – durante um café, ainda antes do pequeno-almoço – a versão do presidente da Associação dos Indignados e Enganados do Papel Comercial (AIEPC) sobre as sequelas da medida de resolução aplicada ao Banco Espírito Santo (BES) e deixado uma promessa. “Disse que teria uma atitude distinta da do anterior governo e trabalharia para que os reguladores se entendessem sobre uma solução”, conta Ricardo Ângelo à SÁBADO.
Nos 90 dias seguintes, um homem de confiança do agora chefe do Governo – que quer manter-se longe dos holofotes – terá tido encontros com a Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM), o Novo Banco (NB), o Ministério das Finanças, o BES, e o Banco de Portugal (BdP). Com os lesados houve perto de uma dezena de reuniões, algumas por telefone. A mais recente, no dia 21, foi num condomínio de luxo perto de Lisboa.
À AIEPC, o Executivo deu a missão de crescer para mais do dobro, para que possa representar o maior número possível de clientes que compraram papel comercial do Grupo Espírito Santo (Espírito Santo International e Rioforte) aos balcões do BES ou do Best em Portugal. Agora, a associação representa 950 pessoas e um investimento de cerca de 200 milhões de euros. Quer chegar aos 100%: 2.083 lesados, com 430 milhões investidos. Para ser associado não é obrigatório contratar nenhum dos advogados que já trabalham com o grupo. Nuno da Silva Vieira e Luís Miguel Henrique até estão a pensar pedir ajuda à Ordem para encontrar um mecanismo que permita que ninguém fique sem advogado, mesmo que não tenha dinheiro.