Novo Banco a reestruturar dívida de José Guilherme

Citamos

Expresso

Empresário que deu prenda de €14 milhões a Salgado entrou em incumprimento > Banco não tinha garantias sobre o crédito e não conseguiu executar avais pessoais por falta de bens

Novo Banco ‘perdoa’ dívida de José Guilherme

Empréstimos a amigo de Ricardo Salgado não tinham garantias

As dívidas do empresário José Guilherme ao Novo Banco foram reestruturadas. O empresário, que “ofereceu” um presente de €14 milhões a Ricardo Salgado quando este liderava o então BES, chegou a ter empréstimos superiores a €200 milhões junto daquela instituição.

José Guilherme terá pago uma parte destes créditos e nas respostas que enviou, no início do ano passado, à Comissão de Parlamentar de Inquérito ao caso BES admitiu que devia cerca de €121 milhões. O Expresso apurou que as dívidas do empresário foram agora reestruturadas num processo de resolução dos problemas que a herança da anterior gestão deixou no banco.

Este é apenas um dos processos muito complicados que Eduardo Stock da Cunha tem para resolver no Novo Banco. Quase todos com as mesmas características. Uma fonte da instituição disse ao Expresso que são vários os casos de créditos avultados que estão em incumprimento e que não têm qualquer garantia. Em alguns, inclusive, existem apenas avais pessoais que são extremamente difíceis de cobrar. Seja pela lentidão do sistema judicial, seja pelo simples facto de os devedores não terem bens em seu nome que possam responder pela dívida.

Este será o caso do empresário José Guilherme que mantinha uma relação profissional e pessoal com Ricardo Salgado. Relação essa que o levou a oferecer €14 milhões ao então líder do BES através do Banco Espírito Santo Angola (BESA). O Expresso tentou saber os contornos da reestruturação da dívida mas o Novo Banco não prestou qualquer esclarecimento alegando sigilo bancário.

Contactado pelo Expresso, fonte próxima de José Guilherme confirma que foi concluído o acordo de reestruturação de dívida, sem que tenha havido qualquer perdão dessa mesma dívida e acrescenta que está tudo regularizado entre o construtor e o banco. Contudo, fonte do Novo Banco diz que o processo ainda não está fechado já que a totalidade da dívida está distribuída por várias sociedades sendo que alguns dos créditos ainda estão ainda a ser negociados. A reestruturação não deve comportar qualquer corte no valor dos empréstimos concedidos, disse fonte do banco, mas a redução dos juros a pagar e o prolongamento do prazo de pagamento acaba por configurar um perdão ao empresário. Um procedimento normal em casos de incumprimento.

Dívidas pessoais de €83 milhões

A lista de dívidas de José Guilherme ao antigo BES é longa e avultada. Através da análise que foi feita pelo Banco de Portugal aos 50 maiores clientes de cada banco sabe-se que o empresário devia ao banco no final de 2012, €223,5 milhões. As dívidas eram distribuídas por 25 pessoas ou empresas distintas que estavam ligadas a José Guilherme. Alguns diretamente, outros através de avais pessoais. A maior dívida estava no entanto em nome do próprio que tinha empréstimos em seu nome no valor de €83 milhões.
Herança demasiado pesada

Nos corredores do último andar do prédio da avenida Alexandre Herculano em Lisboa “legacy” [leagado] é uma das palavras mais usadas. O termo é utilizado para se referir aos problemas com o crédito concedido que a gestão de Ricardo Salgado deixou no banco. O caso de José Guilherme é apenas um dos muitos que a administração do Novo Banco tem para resolver. Tudo de empresas e empresários que tinham uma relação estreita com a anterior gestão. Alguns deles eram inclusive acionistas das holdings de controlo da família Espírito Santo.

A resolução destes problemas é uma prioridade para a atual gestão de modo a facilitar o processo de venda do Novo Banco. Em cima da mesa está ainda, apurou o Expresso, a hipótese de separação de alguns ativos imobiliários que acabaram na lista de ativos do banco depois dos projetos imobiliários apoiados pelo banco terem falido. A estratégia é retirar do balanço estes ativos, deixando-os em repouso à procura de melhores dias para poderem ser vendidos, de modo a aumentar o preço de venda do Novo Banco.
João Vieira Pereira