Novo Banco passa gestão de imóveis para empresa da Lone Star

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O Novo Banco passou milhares de bens imobiliários avaliados em centenas de milhões de euros para a Hudson Adviser, uma sociedade que tem como accionista o fundo norte-americano Lone Star que também controla a instituição. A empresa acabou de se instalar no último andar de um prédio de Lisboa, que pertence ao Novo Banco.

O destino dos cerca de nove mil imóveis que ainda há poucas semanas estavam sob gestão do Novo Banco foi a Hudson Advisers, que tem sede em Dallas e é chefiada por John Graykeno, o fundador (em 1995) e presidente da Lone Star. Baptizado pela imprensa “milionário oportunista”, Graykeno renunciou em 1999 à cidadania americana e assumiu a irlandesa na tentativa de pagar menos impostos. O contrato de gestão prevê que o património se mantenha registado no balanço do Novo Banco, mas passe a ser gerido e rentabilizado pelo veículo texano com vista à sua venda.

Contactada sobre esta relação com o accionista, fonte oficial do Novo Banco esclarece que “na sequência da aquisição do Novo Banco a Lone Star contratou a Hudson Advisers para monitorizar e apoiar o plano de recuperação do banco”. E que o contrato proíbe “a possibilidade de transacções entre as empresas Lone Star e o Grupo Novo Banco”, excepto contratos “até um valor máximo de 7,5 milhões de euros”. Adicionalmente, confirma, ainda que sem detalhar, que “existem dois contratos com a Hudson Advisors, um para a prestação de serviços de assistência e aconselhamento em matérias imobiliárias, e outro de serviços gerais em matérias financeiras e estratégicas”.

Em mudanças

O ruído em torno da relação do banco com o accionista aumentou de tom quando se ficou a saber que a Hudson se mudara (com contrato de arrendamento), nas últimas semanas, para o 9.º piso do número 26 da Rua Castilho, em Lisboa, onde antes funcionou o departamento de pessoal do ex-BES. Isto, porque no mesmo imóvel estão empresas e serviços do Novo Banco.

Antes, a Hudson Advisers já tinha ocupado, a título transitório, o 7.º piso do número 28 da Rua Barata Salgueiro, prédio que também pertence ao Novo Banco e é contíguo à sede, e onde, no 6.º andar, chegou a funcionar a comissão liquidatária do BES mau. Ou seja, a título de exemplo, é como se o GES tivesse escritório aberto nas instalações do BES, para lhe prestar serviços. E recorde-se que, na mesma linha de separação de interesses entre partes relacionadas dentro do mesmo grupo financeiro, o Banco de Portugal deu instruções para separar os serviços da Caixa Económica Montepio Geral dos serviços da associação, a dona do banco.

Antes de comprar o Novo Banco, a Lone Star já olhava para um terreno de 130 mil metros quadrados, localizado em Lisboa, entre as  Amoreiras e a Rua de Artilharia 1, que pertenceu ao Exército. A propriedade foi assumida pelo Novo Banco em 2014, depois de ter executado a promotora imobiliária de Vasco Pereira Coutinho, a Temple (insolvente), financiada pelo BES. O projecto nunca saiu do papel: construção de 65 mil metros quadrados de habitação; outro tanto de escritórios; mais um hotel. Este terreno foi dos primeiros entregues à Hudson, para gerir e rentabilizar.

Dentro do Novo Banco a venda da sede oficial é dada como certa, e a possibilidade de instalar os serviços num imóvel a construir nas Amoreiras também é avançada. E a propósito há quem ironize: “Se o terreno do Pereira Coutinho estivesse na zona da Avenida José Malhoa, quando chegasse a altura de a Lone Star vender o banco, só seria necessário fazer um túnel [uma referência à sede do espanhol Santander, que o Banco Central Europeu privilegia na sua estratégia de criar grandes grupos bancários].”

Em 2015, ainda com o Novo Banco na esfera do Fundo de Resolução, foram vendidos ao fundo anglo-saxónico Perella quatro edifícios (três deles do século XIX) localizados entre a Avenida da Liberdade e a Rua Rosa Araújo. Os valores divulgados ascenderam a 30 milhões de euros.

Futuro da arte em dúvida

O que está também a levantar celeuma é o destino que está a ser dado às colecções do antigo BES: pintura, fotografia (de nível internacional), moedas (raras), livros antigos.

Algumas das obras de arte estão a ser emprestadas a museus portugueses, mas outras servem para “decorar” as instalações que o banco aluga a terceiros. O último episódio envolve novamente a relação do banco com a esfera do seu accionista. Nos últimos dias, os trabalhadores do banco viram encaminhar obras de arte para o último andar do número 26 da Rua Castilho, onde está agora a Hudson, para ali serem expostas.

É que o actual Governo e o Fundo de Resolução (dotado de verbas do sector, financiadas pelos contribuintes) optou por “não salvar” do acordo com o fundo norte-americano as várias colecções herdadas do antigo BES (que podia ter usado para reforçar os museus espalhados pelo país). Uma posição que está em linha com a seguida pelo anterior executivo de Pedro Passos Coelho, que deu instruções para se vender o acervo de obras de arte (de várias espécies e origem) que o BPN adquirira. E a que mais polémica levantou foi a colecção do pintor catalão Miró, que esteve à venda em Londres, um negócio revertido (e a colecção entregue à Fundação de Serralves) depois de protestos públicos, alguns de socialistas. Os contribuintes nacionais arriscam perder no Novo Banco e no BPN aproximadamente 20 mil milhões de euros.

A Lone Star entrou no Novo Banco a 18 de Outubro de 2017 e, ao assumir 75% do capital, passou a controlá-lo. Mas só o fez depois de receber do Governo uma protecção ao negócio. Foi criado um mecanismo de capitalização estatal até ao máximo de 3,89 mil milhões de euros: durante oito anos, o Fundo de Resolução (que ficou com 25%), financiado pelos contribuintes, pode ser chamado a compensar o Novo Banco das perdas associadas a activos “tóxicos” ou as que resultem da alienação de operações não estratégicas (caso ponham em causa os rácios de capital da instituição).

Seis meses depois de o acordo ter sido assinado, o mecanismo de capital contingente foi accionado e os contribuintes chamados a injectar (por empréstimo ao Fundo de Resolução) 792 milhões de euros no Novo Banco. E isto porque o banco apresentou perdas de 1,395 mil milhões em 2017 (dois meses e meio depois), o pior resultado desde Agosto de 2014, quando o banco foi criado.

Quando esteve no Banco de Portugal a fechar a operação de privatização do terceiro maior banco, o administrador da Lone Star, Donald Quintin, declarou-se “entusiasmado com o futuro do Novo Banco”.

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