Remuneração dos gestores do Novo Banco disparou 75% com Lone Star

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Público

Subida da massa salarial nos últimos dois exercícios completos acompanha prejuízos milionários do banco e injecções do Estado de mais de dois mil milhões.

Os membros da comissão executiva do Novo Banco viram as suas remunerações serem aumentadas em quase um milhão de euros assim que a instituição passou para a esfera do fundo de private equity norte-americano Lone Star e, em três anos, assumiu prejuízos de 3,866 mil milhões, os que sustentaram os pedidos de injecção de dinheiros públicos na instituição que já superaram os dois mil milhões. Se a conta incluir o que recebem os membros do Conselho Geral e de Supervisão do Novo Banco, chefiado por Byron Haynes, criado a seguir à venda, então o diferencial, face aos encargos com a gestão em 2016 (em que não havia este órgão), aumenta para quase dois milhões de euros.

Em 2017, a remuneração anual dos seis gestores executivos do Novo Banco cifrou-se em 1.336.000 euros, dos quais 329.600 euros imputados a António Ramalho (três gestores entraram em funções em Abril e Maio, pelo que não receberam o ano completo). Dois anos depois, agora com mais três gestores, a equipa de executivos recebeu 2.345.296 euros, tendo o mesmo presidente executivo auferido 400 mil euros. Uma subida de 75% durante dois exercícios completos e vincadamente negativos (assumindo o salário anual completo dos três gestores que entraram em Abril e Maio em 2017, a subida seria de 53%).

Neste bolo salarial fixo não está incluído um prémio de assinatura de 320 mil euros pago na contratação de Mark Bourke, um dos novos gestores desta equipa executiva.

Quando ainda estava no perímetro do Fundo de Resolução, o Novo Banco não dispunha de administradores não executivos, sendo gerido pelos sete elementos encabeçados por Ramalho, a maioria dos quais ainda se mantém em funções. Na altura, foram indicados pelo Fundo de Resolução, e agora pelo Lone Star (e sem intervenção directa do Fundo de Resolução, apesar de manter 25% do capital do Novo Banco).

A partir do momento em que passou a ser gerido integralmente pelo accionista privado, foi criado um Conselho Geral e de Supervisão (CGS) presidido por Byron Haynes, que recebe pela função 378 mil euros, quase tanto quanto o CEO, apesar de não estar presente na instituição no dia-a-dia, como reconheceu o próprio numa entrevista ao Expresso. Já o vice-presidente, Karl Eick, recebe 250 mil euros.

Com nove membros, todos indicados pelo investidor do Texas, as responsabilidades do Novo Banco com o Conselho Geral e de Supervisão cifram-se em 878 mil euros. Apenas um dos elementos é português – Carla Alexandra Antunes da Silva –, que aufere 60 mil euros como não executivo e que tem origem em bancos norte-americanos como Haynes confirmou na mesma entrevista.

Somando as remunerações dos executivos e dos não executivos, os encargos do Novo Banco com o conselho de administração e com o Conselho Geral e de Supervisão totalizam 3.180.332 euros.

O detalhe está no facto de os salários dos administradores executivos do Novo Banco terem subido assim que o banco foi vendido e os prejuízos disparado para 3,866 mil milhões: em 2017, 1,395 mil milhões (valor que em 2016 foi de apenas 788 milhões); em 2018, 1,412 mil milhões; em 2019, 1,058 mil milhões.

Foi no exercício do ano passado que a gestão de António Ramalho garantiu um prémio de dois milhões de euros, condicionado ainda ao cumprimento de determinados critérios, como a solidez da instituição e um desempenho operacional positivo de forma consecutiva.

Foi neste período que a gestão começou a “descobrir” uma sucessão de créditos mal provisionados no Novo Banco, que atribuiu ao “antigamente”, numa menção de António Ramalho a Ricardo Salgado. E foi o que possibilitou ao Lone Star, passados apenas quatro meses de ter assumido o controlo da instituição, começar a accionar o mecanismo de capital contingente, uma almofada de 3,8 mil milhões de euros, que constituía a protecção dada pelas autoridades portuguesas ao negócio.

Uma almofada de segurança que podia ser accionada caso a gestão do Novo Banco descobrisse novas imparidades ou tivesse de reconhecer perdas resultantes de vendas de activos a desconto. E são estas as razões que justificaram as injecções de 2,7 mil milhões de euros no Novo Banco por parte do Fundo de Resolução, com financiamento público.

As contas anteriores à venda, como as seguintes, foram todas validadas pelo Fundo de Resolução, que tem à frente o vice-governador Luís Máximo dos Santos, que reporta ao Ministério das Finanças, o seu credor.

Outras informações que se retiram dos relatórios e contas, neste caso do documento relativo a 2019, é que o Novo Banco é totalmente monitorizado pelo Lone Star, que ocupa todos os lugares nos comités de controlo interno. O comité de risco é formado por Byron Haynes (presidente do Novo Banco), Karl-Gerhard Eick (vice-presidente), Kambiz Nourbakhsh e Benjamin Dickgiesser, que, entre outras coisas, tem competências “no que respeita a certas operações de crédito e a alterações de políticas de risco.”

Por seu turno, Byron Haynes, Karl-Gerhard Eick e Benjamin Dickgiesser integram o comité de remunerações, cabendo-lhes aprovar a contratação de colaboradores com remuneração anual superior a 200 mil euros. John Herbert, Robert Sherman, Donald Quintin e Mark Coker decidem todas as nomeações que o banco faz.

Já o comité para as matérias financeiras, que faz o “acompanhamento e a supervisão da performance financeira”, das “políticas e processos de reporte de contas e no acompanhamento do auditor externo”, é composto pelo presidente do CGS, Haynes, pelo vice-presidente do banco, Eick, e por Kambiz Nourber. No comité de compliance estão Robert Sherman, John Herbert e Mark Coker.

Nesta terça-feira, em entrevista ao Eco, António de Sousa, ex-governador do Banco de Portugal, e fundador do fundo de recuperação de crédito vendido pela banca, ECS, defendeu: “Dar bónus numa empresa com prejuízos não é necessariamente mau, desde que já se saiba que a empresa não vai ter bons resultados, mas pode melhorá-los bastante.” O ex-presidente da CGD sublinhou ainda que “só não se sabe se é o caso no Novo Banco”.

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