Vítor Bento: a avaliação do Novo Banco foi “mal feita” em 2014

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Expresso

O Novo Banco precisava de mais dinheiro quando foi criado. Não o percebeu imediatamente, mas com o tempo, sim. Acredita que deveria ter havido uma nacionalização e não uma venda. Está contra a auditoria e uma comissão de inquérito. Considerações deixadas por Vítor Bento, ex-presidente do BES e do Novo Banco, à RTP3

O sucessor de Ricardo Salgado à frente do Banco Espírito Santo e primeiro presidente do Novo Banco, Vítor Bento, considera que a avaliação inicial feita à instituição financeira, que o capitalizou com os 4,9 mil milhões de euros iniciais, foi “mal feita”.

“A avaliação dos ativos na altura foi mal feita. Os ativos não se terão desvalorizado propriamente de então para cá. Houve uma sobreavaliação na altura em que foi feito”, afirmou Vítor Bento, atualmente presidente não executivo da SIBS, em entrevista à RTP3 no programa “Tudo É Economia”.

O Novo Banco foi criado a 3 de agosto de 2014 no âmbito da resolução do BES, ficando com os seus ativos e passivos então considerados saudáveis, permanecendo no banco mau a carteira vista como tóxica, na ótica do Banco de Portugal, que é a autoridade de resolução. Recebeu 4,9 mil milhões de euros do Fundo de Resolução, 3,9 mil milhões dos quais emprestados pelo Estado. “Hoje é patente que o capital com que o banco foi dotado não era suficiente para o funcionamento”, continuou Vítor Bento, acrescentando que não teve qualquer intervenção nessa divisão.

“Se se tivesse assumido mais cedo a desvalorização desses ativos, era necessário ter dotado banco de mais capital”, justificou. O dinheiro foi necessário mais tarde: houve perdas de 2 mil milhões de euros impostas a investidores privados com títulos de dívida do Novo Banco em 2015, houve ainda uma injeção do Fundo de Resolução de 792 milhões de euros em 2018, a que vai acrescer a colocação de mais 1149 milhões este ano. Podem ainda ser convocados mais 2 mil milhões de euros da parte do mesmo veículo no âmbito do chamado mecanismo de capitalização contingente.

Não existindo dotação de capital inicial, não foi possível limpar o banco logo à cabeça, ao contrário do que aconteceu com a Caixa Geral de Depósitos, como lembrou Vítor Bento. O banco público pôde assumir mais rapidamente as perdas, “sem ter o saco de tijolos de ativos desvalorizados do passado”, quando recebeu a injeção de 3,9 mil milhões estatais em 2017.

Vítor Bento diz que não percebeu logo que havia falta de capital no banco. “Quando assumi a presidência imediatamente não, mas com o tempo sim”, afirmou, relativamente à perceção da capitalização i. Entrou para o BES em julho de 2014, em agosto passa para o Novo Banco, saiu em setembro. Sobre os motivos para a saída, Vítor Bento não quis falar. Na altura, defendia a manutenção da instituição financeira, sem apostar numa venda rápida, ao contrário do que pretendia o Banco de Portugal. O diferendo ditou a sua substituição por Eduardo Stock da Cunha.

As palavras de Bento vão em linha com aquilo que vem sido dito por António Costa e Mário Centeno, de que a resolução foi mal feita em 2014, durante o Governo PSD/CDS, o que, dizem, prejudicou depois a venda de 75% à Lone Star, que ocorreu em 2017, já sob o seu Executivo.

NACIONALIZAÇÃO? SIM

Mas, apesar dessas considerações, há críticas. Um tema que Vítor Bento quis comentar foi o da possível nacionalização do Novo Banco. Sim, deveria ter acontecido em vez de se ter optado pela venda, diz agora o antigo presidente do banco.

“O Estado investiu no Novo Banco cerca de 6,9 mil milhões de euros, eventualmente para o nacionalizar teria de investir mais. A grande diferença seria que o Estado tivesse ficado com o capital do banco, teria tido o custo, até maior, mas tinha o controlo do banco e tinha o direito aos benefícios da recuperação”, justificou, dizendo, porém, que não há aproximação ao BE e PCP, porque os fundamentos de uma nacionalização por si defendida são distintos do da esquerda política.

Não é a primeira vez que o assume, já que, em 2016, antes do segundo processo de venda do Novo Banco (o que acabou com a venda à Lone Star), o economista também tinha dito que era uma solução a seguir.

AVISO A COSTA E CENTENO

Apesar das considerações, Vítor Bento recusa que se fale de um banco “mau” ou “péssimo”, como classificaram o primeiro-ministro e o ministro das Finanças. “É preciso ter cuidado com adjetivações. Temos de ter algum cuidado, isso pode pôr em causa a perceção do público sobre o banco”, adiantou ainda na RTP3. “Não são os melhores qualificativos”.

“O Novo Banco é bom banco enquanto banco. Tem uma boa relação com empresas, tem bons profissionais. Imagino que seja desagradável ouvir este qualificativo. Percebo que faça parte da retórica política, mas é preciso ter cuidado”, alertou ainda o líder da SIBS.

NEM AUDITORIA NEM COMISSÃO DE INQUÉRITO

Dessa forma, nem a auditoria ordenada pelo Ministério das Finanças nem a comissão parlamentar de inquérito são boas notícias para o Novo Banco. “Não creio que haja grande vantagem, além de algum jogo político”, diz sobre a auditoria. “Não vejo que tenha alguma utilidade”.

Já sobre a comissão de inquérito, admitida por António Costa mas que entretanto já saiu de cena e só voltará possivelmente após as conclusões da auditoria, também não há agrado: “Não tenho grande simpatia por comissões parlamentares de inquérito. E geral, esgotam-se demasiado em tricas políticas, partidárias”.

 

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